A geografia do conhecimento e ensino superior no Brasil

A chamada “virada espacial” ou spatial turn trouxe à ciência outras referências ao estudo do conhecimento. Os tradicionais modos de investigação do conhecimento passaram a considerar a condição espacial em suas interpretações. A filosofia da ciência, sociologia do conhecimento, antropologia do conhecimento e os recentes estudos da história do conhecimento empreendido pelo historiador Peter Burke começaram a considerar a natureza situada da produção do saber. Tais fatos, somados as proposituras de perfis espaciais desenvolvidas por Anthony Giddens, Bruno Latour, Clifford Geertz, Donna Haraway, Edward Said, Michael Fulcault, dentre outros., impulsionaram geógrafos e outros intelectuais a desenhar um programa de pesquisa que passou a ser conhecido como geografia do conhecimento ou geografia da ciência. Geógrafos como David Noel Livingstone e Charles W.J. Withers são, para citar alguns, exemplos de tal empreendimento.

Considerando que o conhecimento detém uma espacialização, é possível mapearmos suas regionalizações no cenário brasileiro. Vejamos, resumidamente, alguns dados sobre o ensino superior no Brasil através do último censo realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP do ano de 2015. O número de matriculados em cursos de graduação presenciais e a distância em instituições públicas e privadas chegou a 8.027.297 de estudantes, espalhados em 2.364 instituições em todo território nacional conforme o quadro (1).


Quadro 1

Unidade da Federação / Categoría Administrativa TOTAL GENERAL
 

Total

 

Bacharelado

 

Licenciatura

 

Tecnólogo

 

Não Aplicável

Brasil     8.027.297        5.516.151   1.471.930  1.010.142 29.074
  Pública     1.952.145        1.195.020   578.997     149.209 28.919
  Federal     1.214.635           800.417      323.295      68.862 22.061
  Estadual        618.633           301.873     233.222      76.699 6.839
  Municipal        118.877             92.730       22.480          3.648 19
  Privada     6.075.152        4.321.131    892.933     860.933 155

Fonte: INEP  2015.

O ensino público se distribui em instituições de âmbito municipal, estadual e federal, compreendendo um total de 1.952.145 discentes, o que representa um terço dos jovens que estão em algum curso superior no Brasil. A esfera federal, entre os três âmbitos, é a que mais tem participação de matriculados, seguida pelas instituições estaduais e, respectivamente, das municipais. As instituições privadas representam dois terços dos estudantes do Brasil, num universo de 6.075.152 de matriculados. Tanto o domínio público como o privado congregam, em seu conjunto, o bacharelado como escolha de carreira preferencial. Quanto à licenciatura, considerada uma categoria distinta do bacharelado pelo INEP, representa 18% do total de estudantes.

Estes dados, geralmente objeto de estudo de estatísticos e economistas, necessitam, também, de investigações que considerem a condição espacial da produção e recepção deste contingente de jovens nos diversos lugares do território brasileiro.

A rasa democratização do acesso ao conhecimento ocorrida no Brasil nos últimos anos redesenhou consideravelmente as bases que sustentavam a ciência brasileira. Negros e pobres passaram a frequentar e ocupar esses espaços, realizando, em conjunto, um processo de expansão e interiorização do ensino superior para diversos lugares do Brasil, deslocando-se a centralidade da região concentrada de que falava o geógrafo Milton Santos.

A geografia, nesse sentido, pode contribuir com análises sólidas desses processos que se materializam fisicamente em diversos lugares do Brasil, ocorrendo, conjuntamente, estilos e identidades regionais da produção científica e de recepção nas cidades. Importante destacar, inclusive, a enorme quantidade de informações produzidas nesses centros educacionais, conduzindo a aparição de redes e a circulações de ideias em pequena e larga escala entre os investigadores. Tudo isso pode ser um objeto profícuo e também urgente de uma geografia do conhecimento no caso brasileiro, sem desconsiderar as relações e contradições entre o conhecimento público e o privado produzidos nessas diversas instituições e lugares.

A ciência, desse modo, e o ensino superior no Brasil em específico, não podem ser interpretados como um conhecimento “sem lugar”, como se as ideias fossem um tipo de produto transcendente ao espaço. A ciência é feita em lugares específicos, tal condição pode dar margem a perfis regionais de investigação científica, bem como características territoriais em níveis escalares maiores.    Por isso, creio ser importante que a geografia e os geógrafos e outros intelectuais deem atenção a essas novas configurações do acesso e produção do conhecimento identificando o “onde” e não apenas o “quanto”, dos movimentos e migrações do conhecimento e dos sujeitos.

Para maiores informações:

Instituto Nacional de estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. [2015] Brasília: Inep, 2016. [ 2016-11-20]. Disponível em: http://portal.inep.gov.br/ .

LIVINGSTONE, D. Putting Science in this Place: Geographies of Scientific Knowledge. ThW University of Chicago Press, Chicago. 2003.

SANTOS, M. O Brasil: Território e Sociedade no Século XXI. 14ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Guilherme dos Santos Claudino é doutorando em Geografia na Unesp, bolsista FAPESP e membro do Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR).

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