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Osteopatia é tratamento para infertilidade

Por Dr. Randy Marcos

Constituir uma família é o sonho de muitas mulheres, porém alguns fatores podem dificultar esta realização, entre eles está a infertilidade. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (EUA), são consideradas inférteis mulheres em idade reprodutiva que não engravidam após um ano de relações sexuais desprotegidas. Mundialmente, cerca de 1,5 milhões de mulheres casadas com idade entre 15 e 44 anos sofrem com este problema, sendo relacionado com diversas causas: 27% desordens ovulatórias, 25% problemas masculinos, 22% disfunções tubárias, 17% fatores inexplicáveis, 5% endometriose e 4% outros fatores.

Retração facial, cicatrizes e deficiências circulatórias quebram a homeostase corporal, tornando o meio susceptível às congestões linfáticas na cavidade pélvica,  além das alterações na distribuição espacial dos órgãos na pelve, do aumento nas assimetrias biomecânicas, déficits no funcionamento do sistema nervoso autônomo, diminuição na nutrição local pelo mau suprimento sanguíneo, além da alta concentração de “lixo metabólico”, o que torna a mulher inapta para a concepção da vida. Perceber se há algum problema com o sistema reprodutor pode ser mais fácil do que se imagina. Alguns sintomas são previamente identificados, como cólicas menstruais, síndrome pré-menstrual, cistos ovarianos, instabilidade emocional e depressão.

 

O tratamento de origem osteopática – uma especialidade da fisioterapia que atua por meio de técnicas manuais em favor de todo o organismo – favorece o metabolismo tecidual e promove uma espécie de limpeza nos órgãos reprodutores, diminuindo a pressão nos vasos sanguíneos, facilitando o suprimento arterial e colaborando para a absorção de nutrientes. Há uma grande quantidade de ligamentos no sistema genital, os quais são importantes para o funcionamento dos órgãos pélvicos. O ligamento uterovesical liga a bexiga ao útero, o uterosacral liga o útero ao sacral, suspendendo o útero posteriormente, além dos ligamentos ovarianos e tubo-ovarianos. Tais conexões possibilitam a dinâmica dos órgãos pélvicos, principalmente durante o ciclo menstrual e gravídico.

 

Ter conhecimento e realizar o tratamento necessário destes sintomas é essencial para melhorar o funcionamento dos órgãos reprodutores, porém é preciso ficar atento e, no caso da osteopatia não apresentar uma melhora, buscar um tratamento mais intenso.

 

* O Doutor Randy Marcos, é fisioterapeuta osteopata e Coordenador da Escuela de Osteopatía de Madrid Brasil em Recife, Pernambuco.

 

 

Sobre a EOM

A Escuela de Osteopatía de Madrid (EOM) é um grupo espanhol, com sede em Madrid. Está presente em 22 países, com 80 unidades e só no Brasil conta com 20 unidades e sede em Campinas, oferecendo capacitação e especialização em osteopatia para fisioterapeutas graduados, com duração de cinco anos e aulas teóricas, práticas e 500 horas de práticas clínicas supervisionadas.  Outras Informações: http://www.osteopatiamadrid.com.br

 

Não reeleger, simplesmente!

Se sua mulher o decepcionasse profundamente, você iria  casar com ela outra vez? Por que, então, os 94% dos eleitores brasileiros que se sentem traídos pelos políticos corruptos, continuariam a votar nos mesmos? É masoquismo crônico ou estupidez atávica reconduzir ao poder gente como Sarney, Maluf, Collor, Temer e caterva, cujos governos aumentaram o déficit fiscal e a desigualdade social, enriquecendo as classes privilegiadas dos três poderes, em lugar de realizar as reformas básicas de cidadania? Votei no Lula na primeira vez e se ainda estou vivo é porque o arrependimento não mata.

O governo atual tenta iludir a boa fé da massa popular prometendo uma reforma política que, se aprovada no Congresso, irá piorar mais ainda nossa pobre democracia. Deputados e Senadores, para compensar a recente proibição do financiamento de campanhas eleitorais pelas empresas, estão aumentando o já milionário fundo partidário custeado pelo dinheiro de nossos impostos. Quer dizer, pedindo perdão pela linguagem chula, o povo tem que pagar ainda mais para ser enrabado! Nunca consegui entender para que serve uma campanha eleitoral, visto que os partidos não têm ideologia nenhuma, prometendo o que jamais cumprem. E o propalado “distritão”, então? Só serviria para garantir a permanência no poder dos chefões dos principais partidos.

A luz no fim do túnel, a meu ver, só poderá aparecer com as eleições de 2018 se, até lá, as forças vivas da Nação conseguissem realizar uma intensa campanha de esclarecimento popular, focando a necessidade de uma renovação completa da classe política. Não canso de dizer que, na atual conjuntura, não há político inocente: quem não é pessoalmente corrupto é cúmplice ou omisso. Os eleitores deveriam tomar consciência de que vender seu voto em troca de um favor qualquer é um péssimo negócio. O político corruptor usará o dinheiro de nossos impostos para se enriquecer, desviando os recursos que deveriam ser destinados  às necessidades básicas da sociedade. Somente colocando no poder gente nova, honesta e competente, poderemos realizar as reformas necessárias: política, tributária, previdenciária, trabalhista, educacional. As eleições diretas de 2018 nos fornecerão esta oportunidade. Dois grandes gênios da humanidade, Albert Einstein e Martin Luther King, já nos alertaram: pior de quem faz o mal é quem silencia, não tomando providências!

Salvatore D’ Onofrio  é  Professor Titular pela Unesp.

Dia dos Pais, Dia de reflexão

No próximo domingo, comemora-se mais um “Dia dos Pais”. Sei que muitos leitores pensarão que se trata apenas de uma data comercial. Outros costumam dizer que todos os dias é “dia dos pais”, assim como da mãe, da mulher, dos avós, da criança. Tendo a concordar. Entretanto, nada mais gostoso do que o pai receber cumprimentos e presentes nesse dia.

É certo também que o conceito de pai, nos dias de hoje, mudou muito, assim como a função que, cada vez mais, ele tem exercido. Hoje, essencialmente, ele deve ou já está desenvolvendo a função de cuidado (outrora, apenas desempenhada pelas mães), além da que sempre desempenhou – a de provedor. É evidente que existem, ainda, diferenças quando a família é das camadas populares e de outros extratos sociais.

Contudo, há sérias e complexas indagações colocadas para os pais nesses tempos pós-modernos ou neomodernos. Entre elas: a) quem é pai nos dias de hoje? b) o pai deve ser amigo de seus filhos? c) como enfrentar a alienação parental? d) como a mãe deve relacionar-se com os seus filhos, quando ela é mãe solo, seja porque o pai biológico não participa da educação dos filhos ou a mãe decidiu ter o filho sozinha? e) o que fazer quando os filhos perguntam sobre o pai? f) como lidar com pais idosos ou pais-avós? g) quem é o pai: o biológico ou aquele que cria e educa? h) como trabalhar com a ausência de autoridade dos pais (ou negação do seu exercício), sobretudo com os seus reflexos na escola? i) como lidar com o excesso de proteção que os pais tem dispensado aos filhos? j) por que os pais resistem em colocar limites aos filhos? k) como a escola deve proceder em relação ao Dia dos Pais, sobretudo quando o aluno desconhece ou foi abandonado por seu pai?

Adianto que as respostas a estas indagações não são fáceis e dependem, em parte do referencial adotado por especialistas. Para os propósitos desse pequeno ensaio, teço considerações sobre as consequências do excesso de proteção dos pais.

Estudos tem evidenciado que, diferentemente do que aconteceu em outras épocas, os pais e/ou responsáveis não estão deixando as crianças e os adolescentes “caminharem com as próprias pernas”.

A justificativa empregada é a de evitar que eles sofram ações violentas (sequestro, pedofilia, atropelamento ou latrocínio). Postulo, porém, que, além desses motivos, está implícito um novo valor atribuído aos filhos, pois, antes, estes eram vistos como força de trabalho para auxiliar na labuta da terra e, consequentemente, garantir melhores condições de vida à família. É evidente que isso ocorria quando se tratava dos pequenos pertencentes às camadas econômica e socialmente menos favorecidas. Quanto aos das classes julgadas dominantes, o desejo dos pais era de que eles estudassem para levar os negócios da família a bom termo. Entretanto, com a redução do número de filhos e a inserção da mulher no mercado de trabalho, entre outros aspectos, os pais passaram a adotar novas formas de cuidado e educação.

Assim, em outros tempos, por causa do número elevado de filhos, aliado ao fato de as pessoas viverem no campo e terem um modo de vida extremamente ritualizado, os pais costumavam educar o primogênito para exercer a função de educador dos demais. Afinal, a imposição de regras e valores éticos e morais, nesse período, era imprescindível. Do contrário, as pessoas corriam o risco de gerar uma horda de primitivos.

Acontece que a redução da prole acabou sendo acompanhada por uma flexibilidade no ensino e na exigência de condutas morais e éticas. Acrescente-se, ainda, que os pais passaram a se negar a impor limites, em grande medida, movidos pelo sentimento de culpa de ter que deixar os filhos sob a responsabilidade de outras pessoas (avós e/ou babás, por exemplo) e instituições (creches e escolas de Educação Infantil). Como resultado, temos a criação de indivíduos insolentes.

Esse excesso de proteção é acompanhado pelo medo do novo. Os pais, hoje, amparados nos argumentos apresentados sobre a violência, têm manifestado ou escamoteado persistentes condutas de proteção aos filhos de qualquer novidade. É como se eles não desejassem o crescimento de seus rebentos por estarem satisfeitos com a dependência total que estes têm deles (e o contrário também é verdadeiro). Por conseguinte, o desenvolvimento – possibilitado, em parte, pelo contato com o novo – acabou sendo impedido com a justificativa de que isso impediria os pais e filhos de serem felizes. Acontece que só aprendemos por meio da experiência, incluindo as experiências negativas. É por meio do fracasso que aprendemos a enfrentar as dificuldades.

A esse respeito, em determinadas situações, o erro é preferível ao acerto imediato, por desencadear o processo de compreensão e, consequentemente, de construção de novos conhecimentos. Já o acerto faz cessar tal processo. Agora, como crianças e adolescentes podem errar se lhes é negado o contato com o novo? Para vários pais, esse processo de experimentação tem sido compreendido como démodé: apesar do fato de tentativa e erro serem os verdadeiros “pais” do sucesso, os pais estão se dando muito trabalho para remover os erros dessa equação.

Parece-me, dessa forma, que a família – especialmente os pais – tem funcionado para amplificar o desejo de seus filhos de viver o presente, de maneira a satisfazer os próprios prazeres a qualquer custo, independentemente dos meios empregados. Essa também é a opinião de vários especialistas sobre o atual desinteresse dos jovens pela produção de conhecimento. Isso significa que os estudantes até chegam a ter vontade de produzi-lo, mas falta-lhes a “força de vontade”. Entretanto, sem desconsiderar um caso ou outro relacionado a essa busca de prazer, esse movimento está amparado no deslocamento dessa força de vontade para o cuidado do corpo, por exemplo.

Dessa forma, as pessoas não deixaram de alimentar a demanda por desenvolvimento. Ela está ligada às novas mídias e/ou à busca do ideal da perfeição corporal e, consequentemente, à protelação do processo de envelhecimento. Isso não quer dizer que, efetivamente, a maioria da população está concretizando essa aspiração. Na verdade, temos dois movimentos concomitantes: um deles, representado por essa busca (somos campeões em cirurgias estéticas) e outro, pela obesidade (o Brasil é um dos países com maior número de pessoas acima do peso).

Por isso, sugiro aos pais que – depois de receber os cumprimentos e os presentes – que se coloquem a pensar: estou a produzir um filho para mim ou para a vida? Esse foi um dos grandes ensinamentos do meu saudoso e querido pai, Sr. Pedro, que procurou sempre me mostrar e ensinar-me a caminhar com as próprias pernas.

Prof. Dr. Nelson Pedro-Silva é Psicólogo e Docente da UNESP/Assis.

A Venezuela em Momento Decisivo

Em 1998 Chávez é eleito pela primeira vez, mas não com outsider da política, como já vai se tornando o novo normal entre nós. Ao contrário, em sintonia com a melhor tradição política, apresentou como bandeira a refundação da república, rapidamente aclamada pelas classes populares, desiludidas com o sistema político representativo fundado pela Constituição de 1961, monopolizado pela AD – Ação Democrática – e pelo COPEI – Comitê de Organização Política Eleitoral Independente.

O primeiro ato do presidente eleito foi a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, que contou com amplo apoio e participação popular, consubstanciados num processo de debate público que envolveu toda a sociedade, desde as grandes cidades às paróquias mais distantes. A Constituição da República Bolivariana da Venezuela, resultado desse processo, apresentou duas novidades para o debate sobre a democracia nesta quadra histórica: 1) a ativação da soberania no processo de elaboração e 2) a extensão desse princípio ao exercício do poder soberano, conforme estabelece o seu artigo 5.º, que a soberania será exercida diretamente pelo povo na forma prevista pela constituição. Uma vez concluído o trabalho da Assembleia Nacional Constituinte, a Constituição foi submetida a plebiscito e aprovada por 85% do eleitorado.

Desde o primeiro momento a oposição manifestou-se ativa e violentamente contra tais princípios. Mobilizou os 15% oposicionistas de várias formas para derrubar ou deslegitimar o governo Chávez. Em ordem cronológica: primeiro, manifestações públicas e apelos à comunidade internacional, depois o golpe de 11 de abril de 2002, em seguida, o paro, que tem início em 02 de dezembro de 2002 e provoca uma queda brutal do PIB, por fim, aceitam a saída constitucional do referendo revocatório, em 2004. Mais uma vez as urnas consagram o apoio a Chávez.

A oposição tirou dessas derrotas a conclusão de que o caminho para inviabilizar o governo e, assim, minar sua legitimidade, era o desabastecimento. Apesar de Chávez declarar, a partir de 2005, que a saída para a soberania e a luta contra o imperialismo era o socialismo, a economia era e continua sendo privada, sobretudo o setor importador, que é chave para um país que importa algo em torno de 70% do que consome. É com o domínio do aparato de produção e de distribuição que a oposição passa a atuar de forma coordenada para promover o desabastecimento, o que o governo conseguiu neutralizar por algum tempo, mas a partir de 2014 esse esforço de longo prazo começa a surtir os seus efeitos, culminando com as eleições de maioria oposicionista para a Assembleia Nacional em 06 de dezembro de 2015.
Nestas eleições, a vitória da oposição não foi resultado de um crescimento eleitoral, mas da enorme abstenção no campo chavista. Uma vez empossada a nova maioria parlamentar, ela declara como objetivo número 1 derrubar Maduro, e então passa a coordenar a ação institucional, as manifestações públicas e a estratégia de desabastecimento com vistas a este fim. Ironicamente, esta ação fez a parcela abstencionista do chavismo retornar ao leito da organização popular, desiludida com uma saída parlamentar para a crise.

Este é o quadro geral de um país divido entre dois projetos distintos. Por um lado, o chavismo, que busca construir uma forma de socialismo ancorado na ativação da soberania popular baseada nos conselhos comunais e nas comunas, novas instituições políticas, conforme o artigo 5.º da Constituição (Ver Leyes del Poder Popular), acima mencionado. Por outro lado, a oposição, que busca resgatar o prestígio da democracia representativa pela negação do projeto chavista; negação que não empolgam as classes populares, que já incorporaram na sua cultura a ideia de participação integral na política, não apenas como eleitor.

Jair Pinheiro é professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília.

A grande saída

A Entrevista da Veja desta semana (9/8) foi com o economista Angus Deaton, prêmio Nobel 2015 e autor do livro “A Grande Saída”. Esta estaria na libertação de milhões de pessoas da miséria no mundo todo, utilizando a capacidade racional do ser humano para resolver os problemas sociais. Segundo o entrevistado, a ameaça à redução da pobreza e da desigualdade está na retórica da classe política que, mesmo percebendo não satisfazer os anseios de seus eleitores, continua governando de uma forma egoísta, sob o manto de falsas ideologias.

A desigualdade social, no Brasil e no mundo, está relacionada com a falta da consciência de que a riqueza nacional é fruto do dinheiro público acumulado pela arrecadação dos impostos pagos pelo povo. Todo cidadão, adulto e sadio, tem o dever de trabalhar e cobrar o direito do atendimento de suas necessidades básicas (educação, saúde, transporte coletivo, segurança pública) de uma forma satisfatória.

A caridade não pode substituir a justiça. O governo não deveria conceder privilégios a empresas, bancos ou outras entidades, singulares ou coletivas, públicas ou privadas, pois os subsídios causam dependência, além de terem a funesta função de angariar votos para a permanência no poder. Nenhuma democracia se sustenta sem meritocracia. Para a grande saída da miséria e aliviar o triste problema da emigração em massa, eu acrescentaria um severo planejamento familiar, a nível nacional e internacional. Os humanos deveriam progredir em qualidade e  não em quantidade, feito coelhos!

A mágica de uma bolinha de gude

É comum que nos apeguemos a objetos, mas, à medida que amadurecemos, percebemos como são pouco relevantes perante a importância da existência em si mesma. O filme francês ‘Os Meninos que Enganavam Nazistas’, dirigido por Christian Duguay, traz ese ensinamento, entre muitos outros, em meio á Segunda Guerra Mundial.

 

A narrativa tem como base o livro que Joseph Joffo, sobrevivente do conflito, publicou em 1973. Intitulado ‘Un Sac de Billes’, narra a sua história de fuga do nazismo com o irmão. As bolinhas de gude, uma delas em especial, funcionam como uma espécie de talismã. Porém, ao saber do falecimento do pai, a passagem para a vida adulta traz transformações.

 

Uma delas é simplesmente deixar a bolinha de lado. Afinal, o que manteve a família unida foi a capacidade dela se reinventar constantemente, seja mudando de país, seja sabendo os melhores momentos de empreender a sua jornada junta ou separada. Trata-se de um permanente jogo de estratégias para se manter vivo. Um passo em fácil significava a morte.

 

O relacionamento entre irmãos comove, assim como o modo como lidam com o ambiente hostil. Existe sempre uma maneira bem humorada de trabalhar com o cotidiano, de maneira que o lúdico se faz presente por mais horrível que o entorno se configure. Nesse universo, as bolinhas de gude são necessárias até um momento. Depois, a vida cobra seu preço.

 

Oscar D’Ambrosio, Doutor em Educação, Arte e História da Cultura e Mestre em Artes Visuais, atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp.

“NUDES” NA INTERNET – UM BECO SEM SAÍDA

Prof. Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso e

Dr. Luiz Augusto Filizzola D’Urso

 

A internet é, sem dúvida, uma importante ferramenta do mundo moderno, mas é preciso muita cautela, quando se faz uso dela.

Não é por acaso que, a cada dia, aumenta a ocorrência de crimes praticados neste espaço da web, são os chamados cibercrimes, que, de certa forma, aparentam proteger o criminoso, todavia, ilusoriamente.

O anonimato na internet é uma falsa sensação, pois, com o avanço da tecnologia, investigações podem detectar a autoria destes crimes. Estas investigações, geralmente, são realizadas pelas Delegacias de Combate a Crimes Digitais, com policiais habilitados para novas modalidades de investigação.

Existem situações, nas quais, embora a investigação tenha sucesso, detectando a autoria do crime, por vezes, esse autor é um menor de idade, o que resulta em profunda frustração quanto à punição.

Atualmente, tem se constatado uma verdadeira onda entre os menores de idade, que se retratam nus e enviam estas fotos a terceiros, por aplicativos de envio de imagens ou mensagens. Estas fotos denominam-se “nudes”. Infelizmente, em alguns casos, aquele que recebe as imagens, salva as fotos e as repassa para grupos e nas redes sociais, podendo até criar perfis no Facebook e no Instragam, objetivando divulgar estas fotos de nudez, tudo realizado, muitas vezes, somente por menores de idade.

Nestes casos, entra-se num beco sem saída, pois, embora a primeira postagem da imagem de “nudes” devesse ficar no âmbito privado, as postagens seguintes ganham domínio público e perde-se totalmente o controle sobre estas fotos.

Caso o autor, que compartilha ou divulga estes “nudes” de menores de idade seja um indivíduo maior de 18 anos, responderá pelo crime previsto no artigo 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê uma pena de reclusão de 3 a 6 anos para quem oferece, troca, disponibiliza, transmite, publica ou divulga esse tipo de foto, podendo também responder pelo crime de difamação.

Por mais competente que seja a investigação e a respectiva reação, na prática, o que se consegue remover da internet são apenas algumas publicações indevidas dos “nudes”, identificando quem as postou, mas, muitas outras fotos permanecerão espalhadas pela web e armazenadas nos dispositivos de diversas pessoas que as receberam. Aliás, é bom advertir que, o simples fato de um maior, armazenar, sem compartilhar tais fotos de menores, também comete crime, que é previsto no artigo 241-B do ECA, com pena de reclusão de 1 a 4 anos.

A lei estabelece tratamento diferente quando o autor do armazenamento ou do compartilhamento dos “nudes” seja menor de idade. Neste caso, o máximo de consequências que suportará pelas publicações ou armazenamento será uma medida sócio-educativa pelo cometimento de um ato infracional, tudo à luz das previsões também do ECA, que afasta o crime e a pena, justamente por tratar-se de menor. Portanto, existem consequências, embora sejam elas muito brandas.

Apesar de toda essa reação, o problema não estará resolvido, pois estas fotos já em domínio público, é comum a reiteração de seu envio e compartilhamento entre os menores, geralmente conhecidos entre si, integrantes do mesmo colégio, do clube, do bairro, etc.

Novas publicações e novas páginas nas redes sociais com estes “nudes” podem ser criadas com facilidade, reclamando a vigilância permanente da vítima que, a cada nova investida criminosa, terá de tomar providências para diminuir os danos, especialmente psicológicos que suportará.

Pode-se comparar à situação daquele que enxuga gelo, pois, por mais trabalho que tenha, jamais conseguirá seu intento de secar totalmente aquele gelo.

Assim, após o primeiro envio de “nudes” (o que jamais deveria ocorrer), não se controla mais o alcance destas fotos, que poderão ser reproduzidas infinitamente.

As consequências são imprevisíveis. Já se viu notícias de adolescentes, que após a circulação de seus “nudes”, diante do sofrimento suportado em razão do bullying e da vergonha, chegam até ao suicídio.

É por isso que a Internet pode ser um beco sem saída para quem está nessa situação, todavia é um beco cuja entrada pode ser evitada.

Considerando que estamos falando de jovens adolescentes, frágeis e vulneráveis, que precisam da aceitação do seu grupo, e que são criaturas ainda em formação, há que se reclamar a responsabilidade dos adultos, especialmente dos pais e das autoridades, em preparar estes adolescentes para resistir a tais apelos e modismos.

Por tudo isso, nossa sociedade precisa, urgentemente, de um programa de Educação Digital, não para os adolescentes aprenderem a trabalhar com computadores, pois isso eles já dominam desde tenra idade, mas para alertá-los dos riscos e dos perigos que rondam a internet, reiterando a inexistência do anonimato na web, revelando a eles sobre a falta de controle do que é postado e todos os riscos desta exposição virtual que ganha domínio público.

Quanto aos cibercriminosos adultos, estes se encontram sempre um passo à frente do avanço das investigações, que permanecem em seus “calcanhares”, identificando-os e punindo-os, pois existem ferramentas tecnológicas e legislativas para tanto, sempre em desenvolvimento.

Portanto, o velho ditado “melhor prevenir que remediar”, se aplica também para a Internet, especialmente nestes casos de “nudes”, por adentrar em um universo incontrolável, tanto para o bem, quanto para o mal.

 

*Prof. Luiz Flávio Borges D’Urso, Advogado Criminalista, Mestre e Doutor em Direito Penal pela USP, Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção de São Paulo por três gestões (2004/2006 – 2007/2009 – 2010/2012), Conselheiro Federal da OAB.

*Dr. Luiz Augusto Filizzola D’Urso, Advogado Criminalista, Pós-Graduado pela Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha), Membro do Grupo de Estudos de Direito Digital e Compliance da FIESP, Membro Efetivo da Comissão Especial de Direito Digital e Compliance da OAB/SP e integra o escritório D’Urso e Borges Advogados Associados.

Garantia de direitos para quem mais precisa

O fenômeno da pobreza se materializa com características próprias em cada uma de nossas cidades. É no território que este fenômeno se manifesta e se reproduz. Assim, estamos convictos de que o fortalecimento dos municípios e das redes locais são fundamentais para a superação das vulnerabilidades sociais.

 

Fortalecer o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) implica em aplicar e disseminar a gestão descentralizada, democrática, transparente e participativa. Tal objetivo depende da soma de esforços do poder público, dos órgãos de controle social e da sociedade civil. Juntos devem desenvolver ações que promovam o desenvolvimento social.

 

Com esse foco, o Governo do Estado de São Paulo tem atuado com empenho no combate à pobreza e à mortalidade infantil. De acordo com a Fundação Seade, em 2015, o índice de mortalidade na infância, com crianças de 0 a 5 anos, era de 12 mortes por 100 mil crianças nascidas. Em 2014, esse índice era de 13,1.

Os números têm caído no decorrer dos anos, a partir de melhorias nas condições de vida, do acesso a medicamentos, do aperfeiçoamento da medicina preventiva, como também da implementação de programas de segurança alimentar.

Há 18 anos, o Estado de São Paulo conta com maior programa de distribuição gratuita de leite pasteurizado do país. O Vivaleite beneficia mais de 318 mil famílias que possuem crianças com idade entre 6 meses até os 5 anos e 11 meses. Cada família recebe mensalmente 15 litros de leite enriquecido com ferro e vitaminas A e D.

A proposta é inspirada nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual estabeleceu que o Estado provenha a alimentação de qualidade para um desenvolvimento saudável. O governo estadual, portanto, cumpre com o Vivaleite o dever da promoção da segurança alimentar às crianças paulistas em todos os seus 645 municípios.

No sentido de promover o desenvolvimento integral dessas famílias, assumimos o compromisso de aplicar uma política pública de assistência social de qualidade, justa e equânime. Desde 2015, todos os programas e ações da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDS) focalizaram as famílias inseridas no Cadastro Único (CadÚnico), prioritariamente com renda mensal per capita menor ou igual a ¼ do salário mínimo. Com isso, as famílias beneficiárias do Vivaleite também devem estar cadastradas no CadÚnico. Assim, ao tirá-las da invisibilidade, garantimos o acesso a seus direitos e descobrimos quem são, como vivem e quais são suas principais vulnerabilidades.

 

Estar cadastrado no CadÚnico dá acesso a serviços, programas e benefícios sociais como: Tarifa Social de Energia Elétrica; Isenção da Taxa de Concurso Público; Seleção para o Programa Bolsa Família; Seleção para os Programas de Transferência de Renda do Estado (Ação Jovem e Renda Cidadã); Inclusão no BPC (Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social); Contribuição como doméstica na Previdência Social; entre outros.

A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo, por meio do programa Vivaleite, tem realizado capacitações com os profissionais das prefeituras para que tenham informações adequadas de como atender a demanda do CadÚnico em cada região. O cadastramento deve ser realizado em um dos 1.103 CRAS (Centros de Referência de Assistência Social), em seus respectivos municípios. Para isso, o Estado conta com o empenho e dedicação das prefeituras paulistas. A união entre os poderes, estadual e o municipal, possibilita o acesso dessas famílias à garantia dos seus direitos.

A partir de políticas públicas focadas para quem mais precisa, conseguimos chegar mais perto dessas pessoas, de modo a entender suas reais necessidades. Contamos, portanto, com a parceria dos municípios no cadastramento do CadÚnico para que possamos trabalhar diariamente para um Estado cada vez mais forte, igualitário e eficaz.

Floriano Pesaro, secretário de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo

As máquinas moleculares e o momento brasileiro

Quem teve o privilégio de assistir a conferência do Prêmio Nobel de Química James Fraser Stoddart, durante o 46o Congresso Mundial da IUPAC, em julho, em São Paulo, deve ter ficado fascinado com os avanços da química e com as chamadas “máquinas moleculares”. Trata-se de construções moleculares de natureza sintética ou biológica, que executam movimentos controlados quando recebem algum tipo de energia, química, elétrica, óptica ou magnética. Componentes microscópicos programáveis e, portanto, de grande potencial para aplicações em vários setores que envolvem alta tecnologia, com destaque para a medicina. Essa conquista foi fruto de três décadas de pesquisa básica e justificou a premiação que contemplou, em 2016, além de Fraser, os cientistas Jean-Pierre Sauvage e Bernard L. Feringa.

Mas a plateia que lotou o evento teve sua atenção despertada também por um outro aspecto da conferência. Ao falar de sua história pessoal, Fraser mostrou que ela não traz nada de excepcional e não se distingue muito da de outros pesquisadores de sua geração, inclusive latino-americanos. Filho de pequeno proprietário rural da Escócia, trabalhou na infância e parte da adolescência nas duras tarefas diárias da fazenda familiar que, durante um período, não contava com eletricidade.

Fraser assinala com ênfase, no entanto, que sua formação educacional básica foi de excelente qualidade, com professores de ótimo nível que sempre o estimularam a estudar e a pensar. Ele considera esse ponto essencial em sua vida de pesquisador, que culminou com a maior premiação que um cientista pode almejar.

As credenciais de Fraser lhe conferem autoridade para ir contra a voz corrente de políticos e tecnocratas hoje empenhados em canalizar recursos dos orçamentos para a pesquisa “aplicada”, de resultados imediatos, em detrimento da pesquisa básica. Toda a sua trajetória, pautada pela preocupação em explicar fenômenos situados nos limites da química, mostra o equívoco de estabelecer uma linha divisória entre ambas, ciência básica e ciência aplicada. Da pesquisa sobre miniaturização e desenvolvimento de materiais, sensores e sistemas de armazenamento de energia, fronteira então totalmente desconhecida, brotaram tecnologias que deverão revolucionar a indústria do futuro.

Em outro ponto interessante da conferência, Fraser exorta seus colegas pesquisadores a se mobilizarem para serem ouvidos pelos governos ou, como declarou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, durante o evento, “é hora de cientistas assumirem uma posição política”. Ele está seguro de que a pouca representatividade da comunidade científica significa uma perda para as sociedades e enorme limitação para o avanço tecnológico, imprescindível para o desenvolvimento sustentável num mundo cheio de incertezas e desafios.

O debate sobre a representatividade da comunidade científica ganha destaque em países europeus e na América do Norte, mas torna-se hoje uma preocupação angustiante para nós brasileiros. Ainda bastante tímido, nosso patamar de desenvolvimento científico no momento está ameaçado de completo colapso, nos colocando em direção contrária a de outros países empenhados em serem protagonistas no século XXI. Apesar do esforço feito nos últimos anos, a comunidade científica tem reduzida capacidade de se fazer ouvir por governantes ou de convencer a sociedade de que não há possibilidade de desenvolvimento sem investimentos em ciência e tecnologia. Neste momento crítico da vida republicana, fora do País por alguns dias, foi possível ver que o Brasil é notícia nos jornais estrangeiros e nos comentários de colegas do exterior, não pelos investimentos em ciência e tecnologia ou por uma descoberta ou inovação tecnológica sensacional, mas só pelo que nos diminui e envergonha – corrupção e descompasso econômico e social. Que a conferência do Nobel Fraser e sua entrevista ao jornal Folha de S. Paulo sirva de estímulo a toda a comunidade científica brasileira neste momento.

Vanderlan da Silva Bolzani é professora titular do IQAr-Unesp e vice-presidente da SBPC e da Fundunesp.

A força do querer e Onerat: duas operações articuladas

Silvia Beatriz Adoue é professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

Onerat

No sábado 5 de agosto, às 4:30 hs, a polícia ocupou favelas da zona norte do Rio de Janeiro (Complexos do Lins e Camarista Méier, da Covanca e no Morro São João), enquanto 3600 efetivos das Forças Armadas cercavam a região ocupada. Participaram também a Força Nacional e as polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal, completando 5000 agentes. A justificativa era uma ação contra roubo de cargas que é realizado pelo tráfico. Segundo levantamento de María Martins (2017), registraram-se ao redor de 5 mil ocorrências desse delito no primeiro semestre deste ano. A megaoperação é parte da segunda fase do Plano Nacional de Segurança. Como resultado da ação, segundo dados oficiais, a polícia cumpriu 15 ordens de captura, sendo que nove dos procurados já estavam na cadeia, três pessoas foram presas em flagrante e houve 2 menores detidos (JORNAL DO BRASIL, 2017). Duas pessoas morreram em confronto, um com a Polícia Militar e outro com a Polícia Civil. Foram apreendidos três pistolas, quatro granadas, três radiotransmissores, uma moto e 16 carros, quatro quilos de cocaína e 13 de maconha. Um sargento da polícia morreu num acidente com uma viatura do Batalhão de Ação com Cães, que também deixou um cabo e dois presos feridos (ALBERNAZ, 2017).

O Plano Nacional de Segurança já previa o envio de 8500 membros das Forças Armadas e 620 agentes da Força Nacional, além de efetivos de outras forças, o que completa um total de 10 mil agentes. O deslocamento de tropas para Rio De Janeiro foi autorizado por decreto do presidente Michel Temer, em decreto assinado dia 28 de julho. A operação do sábado 5 de agosto faz parte da segunda fase do plano no Rio de Janeiro, batizada de “Onerat” (do latim: “carga”). O comando da “Onerat” pretendia surpreender os traficantes do Lins durante o baile funk de sexta feira, mas os policiais não encontraram muitos “soldados” do tráfico na guarda do evento (ALBERNAZ, 2017).

A força do querer

No capítulo de sexta feira, 4 de agosto, a telenovela A força do querer, com dramaturgia de Glória Pires, apresentou no seu enredo uma grande operação no Morro do Beco, em Rio de Janeiro, dirigida por uma das personagens “do bem”: a policial Jeiza Nascimento Rocha, interpretada pela atriz Paolla de Oliveira. A comandante da ação consulta sua tropa antes do início da operação se alguém tem com “algum problema físico ou psicolótico que dificulte nossa incursão na comunidade?” (Capítulo nº 106, 2017). Todos respondem que estão dispostos à missão. Ainda pede para agir com prudência: “Prefiro sair no 0 x 0 do que ganhar de 10 x 1”. A comandante desembarca de uma viatura do Batalhão de Ação com Cães e vai em frente. O deslocamento dentro do território é tenso, apresentado com planos relâmpago e trilha de suspense dramático. Ouve-se a respiração de Jeiza que olha pra cima na curva de uma escada estreita. A câmara subjetiva, primeiro vai passando de contra-zenital para contra-picado e depois para plano frontal, num primeiro momento desfocado, mas vai se ajustando: na mira, uma mulher de meia idade sentada na escada com as mãos para cima e olhar assustado. Jeiza lhe diz: “fica tranquila, senhora”. E continua sobindo a escada. Num dos cortes, a polícia entra, pé na porta, na casa de Rubinho, um emergente do tráfico e acha atrás dos estilhaços apenas a esposa, Bibi, interpretada pela atriz Juliana Paes. Ela explica que o marido é bandido, está casada faz dez anos com ele e não tem o que fazer. Os policiais se retiram.

O objetivo da operação é encontrar o paiol do trafico. Jeiza, sem se separar do Aron, o cão farejador, o descobre num depósito e respira aliviada por não ter havido baixas.

No ponto mais alto da “comunidade”, o “chefe do morro”, Sabiá, interpretado por Jonathan Azevedo, entra em contato com a comandante pelo transmissor apreendido. A desafia, diz que derruba helicóptero, que tem armamento sofisticado. Ela responde com extremo autocontrole: “Falou o que você tinha pra falar? O que eu tinha que fazer, eu já fiz. E o que é teu está guardado”.

Rubinho, interpretado por Emílio Dantas, chega à lajem na que está o chefe e os dois discutem. Rubinho avalia como erro a concentração das armas num paiol. Sugere que as armas estejam distribuídas nas casas dos “soldados” e a descentralização das atividades, para garantir a continuidade dos negócios. Depois de um olhar torvo de 40 segundos, que mantém em suspense sua reação, fazendo suspeitar uma explosão de ira, Sabiá frustra a expectativa e aceita a solução.

A operação policial foi concluída com êxito: apreenderam 100 fuzis sem qualquer baixa, mesmo não tendo feito muitas prisões. Na mesma semana, Jeiza tinha intervido com sucesso na apreensão de carga roubada. A comandante se reporta ao secretário de Segurança Pública, o advogado Caio, interpretado por Rodrigo Lombardi. Nas cenas com a policial, sempre aparece inseguro, sempre um passo atrás na eficiência que a tarefa requer. Contrasta com a firmeza e segurança da profissional. Ele namorou Bibi, agora casada com Rubinho, muitos anos atrás. Jeiza informa que não encontraram o traficante, foragido e escondido no Morro do Beco, mas sim a esposa dele. No drama televisivo, o coração do advogado está em disputa numa dividida entre seu amor juvenil e a policial.

A personagem Bibi foi inspirada no texto autobiográfico de Fabiana Ferreira: Perigosa. No Capítulo nº 107, e mesmo depois do episódio da busca na sua casa, ela se oferece para substituir o marido, visado demais, no transporte de armas.

Operações mediáticas

Em coletiva de imprensa realizada na manhã do sábado, o secretário de Segurança de Rio de Janeiro Roberto Sá negou que houvesse havido qualquer vazamento a propósito da operação. Justificou o número pífio de armas apreendidas à nova logística do tráfico, que teria acabado com a concentração das mesmas num paiol, descentralizando a localização do armamento. Nem ele nem o general Carlos Alberto Santos Cruz, da Secretaria Nacional de Segurança Pública revelaram o valor gasto na operação. Na manhã do domingo, dia 6 de agosto, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse:

Não foi um resultado espetacular, foi um resultado que eu considero razoável. Agora, existe uma coisa chamada curva de aprendizagem, e o que é importante é que nós vamos estar melhorando a cada operação que vai continuar se realizando. Acredito que os resultados irão aparecendo com o tempo e que nós vamos construindo cada vez mais uma capacidade de inteligência, uma capacidade operacional, uma capacidade integrada, que fique evidente para a população do Rio de Janeiro que ela não está mais só. (apud  ALBERNAZ, 2017)

Ainda completou: “Nós temos um macro-foco nesse momento que é a questão das armas”. Isto é, a ação está apenas começando.

A cronologia entre os capítulos da novela, a ação policial-militar, e a coletiva de imprensa é indício de uma operação conjunta dirigida à opinião pública. Tamanha mobilização militar, sem dúvida dispendiosa, sem grande eficácia imediata, considerando os objetivos publicizados, parece ter sido parte de uma ação propagandística. O êxito da ação na novela, deve-se ao diagnóstico confirmado da existência de um paiol que concentra as armas. E a modificação na logística do tráfico é anunciada. No dia seguinte, a ineficácia da ação policial é justificada na coletiva de imprensa justamente pela mudança da logística do tráfico.

Ora, não é crível que a dramaturga Glória Peres houvesse se antecipado à inteligência policial no diagnóstico das práticas do tráfico. Esse conhecimento teria evitado uma ação dispendiosa sem efeito prático. Parece, mais bem, que o Capítulo nº 106 se articula com a operação na zona norte de Rio de Janeiro e com a coletiva de imprensa numa ação propagandística destinada a justificar um segundo momento da ação repressiva que inclua a incursão da polícia em buscas casa por casa, estilo “ancinho”.

Na novela, a ação é extremamente respeitosa com os moradores. Segundo dados recolhidos no anuário Atlas da Violência 2017 (CERQUEIRA, LIMA et all), publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rio de Janeiro só perde para São Paulo o número de mortes decorrentes da ação policial. Segundo informações do Instituto de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2017, houve, em Rio de Janeiro, 577 casos de “auto de resistência”. Configura um aumento de 45% em relação ao primeiro semestre de 2016 e é o crime que mais cresceu (G1, 2017). As organizações de direitos humanos colocam sob suspeita a figura de “resistência seguida de morte”, que costuma ser o registro com que se justifica a letalidade da polícia.

No contexto de temor à “insegurança” da população não favelada, a criminalização indiscriminada dos moradores da favela, apresentada como foco dessa insegurança, não se instala. A saga dos filmes sobre a repressão ao tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro de José Padilha apresentava os moradores como vítimas do fogo cruzado (ADOUE, 2012), mas, para investigar casa por casa, é preciso apresentar cada do morro como suspeita. Por tanto, o Estado precisa de uma ação ideológica que justifique um tipo de prática que vasculhe cada canto da favela, à maneira do tristemente conhecido Batalhão de Paraquedistas francês durante a guerra colonial no bairro da Casbah, na cidade de Argel. A novidade, um tanto assustadora, é a utilização precisa feito mecanismo de relógio da novela de horário nobre nessa operação ideológica.

Referências

ADOUE, Silvia. “Tropa de Elite e as narrativas da violência”. In: Passagens de Paris, Vol. 7, 2012, p. 2013-222.

ALBERNAZ, Bruno. “Ministro da Defesa considera resultado da Operação Onerat ‘razoável'”. In: G1, 06/08/2017, disponível em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/ministro-da-defesa-considera-resultado-da-operacao-onerat-razoavel.ghtml, acessado em 07/08/2017, às 10:33.

CERQUEIRA, Daniel, LIMA, Renato Sergio de, et all. Atlas da violência 2017. Rio de Janeiro: IPEA, FBSP, 2017.

ESCOBAR, Fabiana. Perigosa. Rio de Janeiro: Perse, 2013.

G1. “RJ teve o primeiro semestre mais violento dos últimos três anos, diz ONG”. In: G1, 01/08/2017, disponível em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/rj-teve-o-primeiro-semestre-mais-violento-dos-ultimos-tres-anos-diz-ong.ghtml, acessado em 07/08/2017, às 13:17.

JORNAL DO BRASIL. “Operação no Rio acaba com mito de crime organizado e poderoso, diz ministro”. In: Jornal do Brasil, 07/08/2017, disponível em http://www.jb.com.br/rio/noticias/2017/08/05/operacao-no-rio-acaba-com-mito-de-crime-organizado-e-poderoso-diz-ministro/, acessado em 07/08/2017, às 10:35.

MARTINS, María. “No Rio, megaoperação com as Forças Armadas nas favelas tem só nove presos”. In: El País, 06/08/2017, disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/05/internacional/1501948146_294926.html, acessado em 06/08/2017, às 11:40.

PIRES, Gloria. “Capítulo nº 106”. In: A força do querer, 04/08/2017, disponível em https://tabonitobrasil.com/inicio/assistir-forca-do-querer-04082017-capitulo-106/, acessado em 07/08/2017, às 11:01.