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Descanso para os cansados

Em suas pregações Jesus convida todos que estão cansados e oprimidos a achegarem-se a Ele, para tomarem sobre si o Seu jugo e aprender com Ele, dizendo: Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar. Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mateus 11:25-30)

Esse convite enseja entender Jesus e sua mensagem inovadora que atualizou a lei e os profetas ao ensinar que tudo pode ser resumido na prática do amor        – amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo – e na imortalidade da alma, contextualizando, assim, uma perspectiva de esperança futura.

Procurar entender as lições de Jesus – sobretudo seus atos, os quais guardaram plena convergência com suas falas -, enseja uma nova expectativa existencial, pois há a superação da angústia decorrente da limitada noção de vida futura. Aquele que analisa os fatos do cotidiano sob o ponto de vista espiritual – e não meramente material – tem uma visão mais ampla, tal qual aquela pessoa que sobe uma montanha – e pode vislumbrar outros horizontes – em relação àquele que ficou fixo ao seu pé.

Procurar entender Jesus possibilita o fortalecimento da fé, que deve ser raciocinada e não simplesmente um sentimento inato, e alivia os sofrimentos da matéria porque, além de trazer consolação aos corações, gera confiança na justiça divina.

Procurar entender Jesus, tanto no aspecto moral como espiritual, ajudará no enfrentamento das vicissitudes da vida material que, aliás, nos trazem valiosos ensinamentos, bem como fortalecerá nosso espírito, porque fará de nós pessoas melhores e, portanto, mais próximas de Deus.

Enfim, aceitar o convite e procurar entender Jesus implica no fortalecimento e no entendimento da fé – reconhecida como a mãe de todas as virtudes – e, como consequência, oferece esperança no futuro e a caridade, pois encontraremos paz, sobretudo, de espírito e seremos capazes de transformar nossas vidas ao elevarmos nossos corações.

Paulo Eduardo de Barros Fonseca é vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, mantenedora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Contra preconceitos

Há filmes que merecem ser revistos pelo poder que têm de revisitar uma época e, mesmo assim, permanecerem atuais sob diversos aspectos. É justamente o caso de ‘Jumpin ‘Jack Flash’ (‘Salve-Me Quem Puder’, no Brasil). Trata-se de uma curiosa mescla de comédia com espionagem de 1986 com dois destaques históricos: estrelado por Whoopi Goldberg, num de seus primeiros papeis de destaque, e dirigido por Penny Marshall, falecida em dezembro último, que realizou, entre outros sucessos, ‘Quero ser Grande’.

A obra é pioneira por apresentar o universo da computação em primeiro plano. A personagem de Whoppi trabalha num banco e usa os computadores para transmitir imensas somas de dinheiro entre instituições de todo o mundo. Irreverente, não segue as rígidas normas da empresa e tem sua comunicação invadida por um agente americano preso no Leste Europeu.

Ele deseja voltar e a funcionária americana é sua ponte de contato com o mundo ocidental, em mensagens em código e senhas criadas a partir da música “’Jumpin’ Jack Flash” dos Rolling Stones. Começa então uma trama de espionagem bem urdida que aponta para questões inovadoras nos meados dos anos 1980 que se mantêm atuais.

Duas delas são cruciais: a valorização da funcionária enquanto negra e enquanto mulher. Essas discussões são tratadas diretamente, sem rodeios, pois a competência dela se sobrepõe ao desejo do chefe de homogeneizar o atendimento, tratando pessoas como máquinas. Muita atualidade nesta atuação memorável de Whoppi!

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

O vício da bebida

O vício da bebida já foi tratado de diversas maneiras no cinema, mas poucas têm o efeito derrisório do filme irlandês “Glassland”. Dirigido por Gerard Barrett, conta interpretações marcantes de Toni Colette e Jack Reynor, respectivamente como uma mãe imersa no álcool e seu filho numa cruzada para resgatá-la do naufrágio.

O diálogo entre os dois no qual ela explica como mergulhou no vício é exemplar. Após o nascimento de um terceiro filho com necessidades especiais, o marido a abandonou e ela rejeitou a criança. Isolada, a única alegria momentânea que alega ter encontrado estava nos copos sucessivos.

Confessa não gostar do sabor, mas do efeito efusivo e relaxante que lhe dão um respiro numa vida cotidiana da qual deseja escapar. Mas esse caminho a mata gota a gota, e o filho, taxista como o pai, começa a trabalhar cada vez mais horas nas mais diversas situações para conseguir dinheiro para interná-la numa clínica de reabilitação.

 Uma decisão do diretor merece especial relevância. Ele opta por não colocar trilha sonora ao longo da narrativa, o que dá às cenas um clima realista louvável, já que nossa vida cotidiana não tem música de fundo. Destaca-se ainda a cena em que o filho mostra mãe mostra a cena que ele gravar com ela totalmente descontrolada pela falta de bebida na casa. Em seu discurso, ele reforça que não é aquela mãe com a qual ele gostaria de conviver. O momento é tocante e de grande força dramatúrgica e vivencial       

 Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Abuso sexual de jovens

Abuso sexual de jovens é um tema muito sério e ainda pouco divulgado e discutido abertamente. A situação se agrava quando pensamos em adolescentes atores. E, mais ainda, quando o universo retratado é o de Holywood, a meta e a Meca do cinema mundial.

O documentário ‘An Open Secret’ (‘Um segredo aberto’), dirigido por Amy Berg, lança luzes sobre o tema. Ilumina áreas sombrias de um assunto que poucos desejam enfocar. Para isso, reúne depoimentos de adolescentes que foram molestados por agentes e empresários.

Acompanha essas pessoas não só colhendo depoimentos do que aconteceu no passado, mas, principalmente, apontando como essas pessoas estão hoje e como o abuso transformou as suas vidas. E os relatos não são leves, pois envolvem, depressão, tentativa de suicídio e envolvimento com drogas e com álcool.

O mais assustador é que alguns dos condenados enfocados no documentário continuam com suas atividades normalmente. Mesmo com o nome maculado pela justiça, parece existir um lobby poderoso para que as histórias não venham à tona, pois escândalos na área prejudicam investimentos e a visão que se tem de Hollywood como ‘terra dos sonhos’.

Nesse sentido, um dos pontos altos do filme, com renda integralmente revertida para entidade que cuida do tema, está em desmascarar as respostas comuns dos abusadores sexuais, na linha de que houve consentimento das crianças por exemplo. O abuso tem que ser condenado e os responsáveis punidos para gerar uma espiral virtuosa de denúncias fundamentadas que levem a condenações amparadas, é claro, em fatos, evidências e na lei vigente.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Demasiadamente humanos

Os espanhóis Javier Bardem e Penélope Cruz e o argentino Ricardo Darín formam uma tríade de respeito dentro do cinema de fala hispânica. Dirigidos pelo cineasta iraniano Asghar Farhadi, oferecem, em “Todos já sabem”, um drama de suspense que gira em torno do sequestro de uma adolescente de 16 anos durante uma festa de casamento.

O desaparecimento da jovem é a maneira como o diretor critica a hipocrisia reinante em uma família de classe média alta, com seus podres internos, falhas trágicas, mas também qualidades morais e demonstrações sinceras de afeto. Um dos grandes méritos do filme, talvez o principal, seja justamente, evitar o maniqueísmo. Não há santos ou demônios, mas seres humanos com suas idiossincrasias, mas também com sentimentos nobres.

Pensando apenas nos três atores citados, cada um traz para a cena um conflito. Bardem representa o homem apaixonado pela garoa que conheceu na infância, hoje casada e no exterior, com quem descobre que teve uma filha. E é capaz de tudo por essa jovem. Penélope, por sua vez, se revela uma mãe devotada, mas plena em ambiguidades afetivas cm os dois principais amores de sua vida.

Darín, como é característico em suas interpretações, transita entre a dor de ser um empresário falido e dependente da bebida e um homem apaixonado que aceitou uma criança que não era sua, vendo nela uma espécie de redenção. Somente por essas, e outras nuances, o filme é um convite para uma reflexão sobre tudo aquilo que nos torna humanos, demasiadamente humanos.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Aura ambiental

Sujeitos às necessidades materiais e aos seus instintos, a humanidade tem experimentado dias difíceis. São reiterados os atos de violência, os atentados contra a moral e a ética, os desastres da natureza e guerras que ceifam vidas, enfim, situações que afetam a psicosfera, ou seja, o campo de emanações eletromagnéticas que envolvem os seres humanos. 

Quando vivenciamos uma forte emoção, choque ou perturbação, emitimos vibrações densas que formam núcleos de força negativa, repletos de resíduos escuros. A física quântica diz o aparente comportamento estável da matéria foi substituído por ondas e pacotes de energia; portanto, as formas mentais que criamos são ativas e agem intensamente ao redor do seu criador. Cabe dizer: o pensamento tem força!

Daí a importância de que sempre, em qualquer situação, os pensamentos procurem refletir emoções de esperança, fraternidade e alegria, formando uma aura ambiental individual e coletiva de amor.

Joanna de Ângelis diz que “o teu pensamento é fonte de vida que não podemos descurar”. Manter a energia individual positiva ajuda a criar um comportamento vibratório coletivo mais harmônico, bem com abre oportunidades para nos aproximarmos dos sentimentos superiores emanados pela espiritualidade amiga.

Como o planeta passa por profundas transformações no campo espiritual: “Seja luz, por mais que a vida lhe traga desgostos. Seja caridoso, por mais que a vida lhe traga pessoas ingratas. Seja Humilde, por mais que a vida lhe traga provações ingratas. Seja amor, por mais ódio que tentem colocar em seu coração. Pois nada, nem ninguém, merece que você mude sua essência. Não devolva na mesma moeda a energia que recebe, transmute-a dentro de si.”.

Devemos zelar pelo nosso ambiente mental tornando saudável e harmônico o ambiente material. Não nos deixemos contaminar pelo pessimismo, pela tristeza, enfim, por vibrações negativas. Devemos estar atentos para o nosso próprio estado emocional.

Lembremos sempre do ensinamento de Jesus no sentido de que é preciso Orar, para estarmos mais próximo de Deus, e Vigiar, para que os pensamentos e, consequentemente, os atos não entrem em contradição com a oração.

Enfim, como sempre, é preciso que cada qual faça a sua parte!

Paulo Eduardo de Barros Fonseca é vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, mantenedora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A AUSÊNCIA DE CONFLITO NO EXAME DE MOTO


ANTONIO CARLOS VICENTE DE OLIVEIRA
Graduado em Direito, Mediador Judicial habilitado pelo CNJ e Instrutor de Trânsito conforme Resolução nº 358/10 CONTRAN.

A cada dia cresce de maneira exponencial o número de pessoas que pretendem adquirir a “carta de moto”, porém devem preencher todos os requisitos exigidos pelo Departamento Estadual de Trânsito. Dessa maneira, após a aprovação no exame teórico, o examinando precisa ser aprovado na segunda etapa do processo avaliatório para possuir a Carteira Nacional de Habilitação na categoria “A”.

A habilidade do pretendente será apurada com fundamento na sua capacidade de exercer domínio sobre a moto, porque se o futuro motorista cometer alguma falha, não vai escapar aos olhos do examinador do DETRAN.

Nesse sentido, vários alunos são reprovados por pequenos deslizes no dia do exame, por iniciar a prova sem estar com o capacete ajustado ou afivelado à cabeça, deixar a viseira levantada ou não usar óculos de proteção, avançar sobre o meio-fio ou a indicação de parada obrigatória, abalroar um ou mais cones de balizamento, Colocar o(s) pé(s) no chão com a moto em movimento, não manter equilíbrio na “prancha” e sair lateralmente dela, errar o percurso ou não completar o “8” de maneira correta, cair da motocicleta durante a prova ou provocar acidente durante a realização do exame, como bater em outra moto.

É de se perceber que muitas vezes o aluno faz os exercícios com facilidade durante as aulas com o instrutor, mas no dia do exame fica nervoso e acaba reprovado. É importante evitar a ansiedade, concentrando-se no conhecimento adquirido durante as vinte (20) aulas que teve com o instrutor da autoescola e manter a ausência de conflito no exame de moto.

A prova deve ser realizada como se fosse uma aula normal, ou seja, com o foco na aprovação, o candidato pode até imaginar que está sendo observado pelo instrutor para manter a tranquilidade durante a avaliação.

Neste dia, é interessante não falar com outros candidatos antes de entrar na prova, evite qualquer tipo de interferência negativa, mantendo-se focado e com ânimo firme. Assim sendo, cautelosamente, para que haja um bom desempenho, o candidato deve ter se dedicado durante todo o processo de habilitação, principalmente, na época em que recebeu as informações sobre a teoria e prática nas aulas com a motocicleta. Finalmente, se possível, vale a pena ter o seu próprio capacete e é imprescindível, uns dias antes, conhecer o local prova, onde o examinando deve mostrar aptidão por intermédio de equilíbrio, eficiência na manobra, uso adequado de sinalização e reflexo rápido diante de obstáculos para ser aprovado e obter a CNH.

Sobre a liberdade

Em tempos de radicalismos, mensagens que enfatizam a busca da liberdade de toda espécie são muito bem recebidas. É o que ocorre com a nona versão do filme ‘Papillon’, segunda versão do livro de sucesso publicado em 1969 por Henri Charrière, que alegava que se tratava de uma história autobiográfica, fato contestado posteriormente.

Após uma versão de grande repercussão de 1973, a nova versão de 2018 humaniza os personagens de modo a serem menos heroicos, mas não perde a essência do romance, que está na vitória da determinação perante condições muito adversas. Afinal, as prisões do século passado conseguiam ser ainda piores dos que as de hoje em termos de humilhações e maus tratos.

O protagonista Papillon, que significa ‘borboleta’, cumpre pena por uma injusta acusação de assassinato, e conhece numa prisão de máxima segurança um responsável por falcatruas financeiras. A capacidade de sobrevivência de um e o dinheiro do outro constroem uma amizade fundamentada na busca de alternativas para a sobrevivência.

Papi supera violências físicas e morais, além do risco de enlouquecer na solitária ou na colônia penal, sempre com a ideia da fuga. O filme se sustenta por mostrar que possibilidades de saída existem mesmo nas mais terríveis situações. Para isso, é necessário olhar para diante, aprendendo com erros próprios e alheios. Desistir nunca é a lição que fica, assim como a da construção de uma amizade por mais improvável que ela possa parecer.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Uma visão apolítica dos Direitos Humanos

Como todos sabem, eu me considero um eleitor do Bolsonaro. Muito mais pela indignação, tendo em vista a corrupção que se instalou no país, do que por qualquer outro motivo. Eu fui um daqueles que saíram às ruas para clamar pelo novo, pela dignidade de viver num país melhor, já que no Brasil a prática política foi desvirtuada, tomada pela impunidade dos membros do legislativo e pela promiscuidade entre entes públicos e privados. Fui também um daqueles que lutaram pela Constituição de 1988, que acolhia os princípios da dignidade humana, educação, justiça social e tudo mais que achávamos essencial para um país crescer de forma humanitária, alinhada com as premissas dos conceitos que permeavam os países da Europa, nos quais os Direitos Fundamentais eram aplicados e estudados na sua forma mais abrangente do ponto de vista social, como ocorria na Alemanha, um exemplo de vanguarda quando se fala em Direitos Fundamentais da pessoa humana.

Como já disse, não tive outra opção a não ser me tornar um eleitor de Bolsonaro, mas não um eleitor fanático, que perdeu o senso crítico e que aceita tudo em nome de voto de protesto contra a corrupção, não, votei consciente e pronto para participar, caminhando junto, aprovando ou criticando pontos da pauta conservadora, medindo, sim, os exageros, os despropósitos, e de certa forma sempre com um olhar vigilante, como advogado, analisando as propostas de mudanças, principalmente na área criminal, em que a Carta Magna se esboçou na modernidade do Direito, visando à dignidade humana, o que já é contemplado nas Constituições modernas de países que podemos apontar como paradigmas de uma cultura avançada.

Com o aumento da violência no Brasil, a expressão “Direitos Humanos” se vulgarizou, pois, quando não se tem um baixo nível de criminalidade, culpa-se a política social, que visa aos direitos fundamentais, e se ateia fogo em todos os preceitos de proteção à população em nome de uma reação contrária a tudo que poderíamos ver como avanços na nossa Constituição.

O projeto de lei anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, no meu entender, abrange pontos positivos e muitos pontos negativos. É na realidade um apanhado de maior vigor contra crimes de lavagem de dinheiro e corrupção, o que é positivo. Contudo, toda exegese do princípio de execução penal é o acirramento das prisões e o aumento significativo do encarceramento dos agentes delituosos, levando o país a um grave aumento da população carcerária, que hoje está por volta de 800.000 presos, ou seja, a terceira maior população carcerária do planeta.

A pergunta que se faz é a seguinte: Numa visão simplista, a ideia num primeiro momento parece ser a de encarcerar mais pessoas, construir mais presídios, enaltecer a excludente de ilicitude para vários casos controversos, atolar a Justiça Criminal com mais processos, menosprezar alguns aspectos que atingem em cheio a nossa Constituição, mas seria essa a solução?

Vejo, portanto, com bons olhos a iniciativa da Comissão Arns, uma homenagem ao cardeal arcebispo D. Paulo Evaristo Arns, que em 1972, durante a ditadura militar, criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo. O grupo será presidido pelo ex-ministro e cientista político Paulo Sérgio Pinheiro. Integram também essa Comissão juristas de renome, como o criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira e o ex-ministro de Direitos Humanos Paulo Vannuchi.

Num governo Conservador, deve-se, antes dos postulados políticos, analisar se novas ideias podem ser palatáveis à população, que, ainda que repleta de razão em sua sede de vingança contra a violência, não pode abrir mão de leis que preservem um ajuste jurídico e acima de tudo técnico, a fim de não padecer um retrocesso em relação ao já conquistado na nossa Constituição, que em última instância sempre teve como objetivo a proteção da pessoa humana, principalmente dos mais pobres, pois são os que mais sofrem com o descaso da sociedade.

Fernando Rizzolo é Advogado, Jornalista, Mestre em Direitos Fundamentais, Professor de Direito

Contra a homofobia

Obras de arte que alertam contra a homofobia são maneiras de alertar para um tema que muitas vezes se faz presente de maneira velada. Enfocá-lo de maneira direta é o grande mérito do filme chileno ‘Nunca vas a estar solo’, de Alex Anwandter. A maneira clara e direta de enfocar dois aspectos da questão merece destaque.

O protagonista é um rapaz de 18 anos que vive com o pai, gerente de uma fábrica de manequins. O jovem, que mantém um relacionamento homossexual, é violentamente atacado na rua e internado num hospital para diversas cirurgias plásticas. Começa então a saga do pai em duas direções. Ambas igualmente complexas.

Por um lado, ele começa a tirar o véu da homossexualidade que ele mesmo tinha colocado sobre o filho. É por meio de relatos externos, de vizinhos e de amigos dele que começa a descobrir a sexualidade de quem convivia sem viver de fato sob o mesmo teto. Em paralelo, verifica como plano de saúde não paga pela agressão sofrida.

As duas dimensões se aglutinam na maneira de lidar com a dor. O preconceito próprio, as dificuldades financeiras e as marcas de ser pai com um filho que não atende às expectativas se mesclam em múltiplos desdobramentos. Ele percebe que é mais fácil fabricar um manequim artificial do que com um ser vivo, com vontades próprias numa sociedade preconceituosa, onde a diferença é geralmente vista como aberração e tratada com intolerância.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.