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Admirável (ou Abominável) Mundo Novo

Volto a escrever sobre a Previdência. Não me move o oportunismo de aproveitar o mau momento do governo que promove reformas tidas e havidas como redentoras. O chefe de governo está nas cordas, atordoado, e o juiz já iniciou a contagem para declarar nocaute. Não me move nem mesmo o que os alemães chamam de Shadenfreude, pois a minha sólida formação cristã ensinou-me a ter piedade do próximo que sofre, ainda que este esteja distante e não a mereça.

Não volto à vaca fria por interesse pessoal, embora tenha sido diretamente atingido pela reforma em curso. Ao contrário do que se possa pensar, aceito serenamente as condições que ela me impõe. Caso não esteja cego, surdo, manco ou louco e perceba que os alunos, sempre jovens, ainda me suportam sem intenso sofrimento, continuarei trabalhando alegremente até os 65 anos ou mais, se as circunstâncias permitirem ou exigirem. Ao contrário de boa parte dos membros do atual governo, não estou preocupado com o futuro imediato, mas com o futuro que vai além, inclusive, da minha breve e obscura existência terrena.

O jornal Folha de S. Paulo divulgou há poucos dias (17/5) um estudo da insuspeita consultoria McKinsey, que prevê a substituição até 2066 de metade dos atuais empregos no Brasil por processos de automação. Como os tratores, navios, caminhões e carros sem motoristas, assim como os velhos robôs, já são uma realidade, para gáudio dos empresários, e a inteligência artificial parece estar a caminho, tais previsões são bem credíveis. À luz desse estudo, o equívoco da direção que se dá à reforma da Previdência parece-me evidente. Toda ela é baseada no argumento de que é preciso encontrar um equilíbrio entre a supostamente estagnada base de contribuição e o montante consumido pelos crescentes benefícios concedidos. Quando aquele admirável mundo das máquinas for uma realidade, o número de contribuintes, isto é, de trabalhadores na ativa, com carteira assinada, será bem menor do que o atual, com o agravante de que a existência inevitável de um vasto exército de desempregados vai implicar em intensa deterioração dos salários e das condições de trabalho, algo que já se inicia nos dias de hoje com a nova lei da terceirização e a chamada reforma trabalhista. Portanto, a arrecadação das contribuições previdenciárias vai, por força, cair dramaticamente. Governantes com mentalidade de guarda-livros não terão soluções para esse problema. O que o sucessor de Meirelles vai propor? Dobrar o percentual das contribuições? Cortar pela metade o valor dos benefícios? Elevar a idade mínima para 85 anos? Quando se verifica que as obras mais vistosas construídas pelos atuais governantes não são escolas ou hospitais, mas presídios, não há saída senão temer as soluções que poderão sair da cabeça do Meirelles do futuro.

Tudo, aliás, vai muito mal. Grandes empresários são recebidos em palácio e podem livremente sussurrar seus pleitos ao pé das orelhas governamentais, utilizando argumentos que não estão ao alcance do José da Silva, boia-fria, ou do Manuel da Costa, estivador. Muitos desses empresários obtêm isenções fiscais ou “complacência” na fiscalização devida, as quais vão afetar a arrecadação de tributos, agravando a propalada crise fiscal do Estado, em nome da qual ironicamente se fazem reformas. Os trabalhadores, ao contrário, têm de berrar suas reivindicações do meio da rua, entre balas de borracha, jatos de água, gases desagradáveis e os cassetetes dos responsáveis pela manutenção da ordem.

Desde antes do atual governo, benefícios sociais vêm sendo restringidos. São, no entanto, dispositivos como o seguro-desemprego, o chamado benefício de prestação continuada, o bolsa-família, a Previdência e a renda básica de cidadania (ainda um sonho) que poderão fazer frente aos grandes desafios sociais do futuro. Como disse o poeta, em redondilha: “Tem que manter isso, viu?”

Alvaro Santos Simões Junior é professor do Departamento de Literatura e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis.

Os mestres invisíveis da política

Fazer política significa decidir, criar normas, guiar a sociedade e, nas democracias, representar a vontade popular. Nada disso ocorre na atual  política brasileira. Temos a impressão que diminui mais e mais o grau de autonomia dos políticos em relação aos grandes empresários e os banqueiros. Como isso interfere na nossa democracia constitucional?

O sistema constitucional que surgiu após a revolução francesa trouxe o fim das monarquias que concentravam o poder na figura do rei e de uma oligarquia com privilégios inquestionáveis. Os revolucionários proclamaram que a França não pertencia mais ao rei, mas ao povo. É o momento simbólico que questiona a submissão. Submissão que se expressa na imagem do coletor de impostos, representante do Estado, que arrancava dos trabalhadores não apenas dinheiro, mas também seus meios de subsistência.

A separação de poderes, pilar do constitucionalismo, prometeu combater o absolutismo graças à fiscalização mútua das autoridades estatais, garantindo moderação, diálogo, transparência e pluralismo. Hoje, as decisões políticas promovem a concentração do capital, favorecem a venda de ativos nacionais como medida de liberalização e diminuem impiedosamente salários, aposentadorias e demais direitos dos trabalhadores. Entre tantos exemplos, o BNDS ofereceu recursos estatais, logo pertencentes ao povo, a grandes empresas que os utilizaram para se impor aos concorrentes de médio e pequeno porte, revertendo parte do lucro a políticos. Esse processo, apelidado “reformas” ocorre com a anuência dos três poderes que restringem direitos fundamentais e desrespeitam princípios políticos. Como não lembrar do coletor de impostos que arrancava os bens dos trabalhadores para manter o rei e a nobreza?

A lei parece mais uma falácia para submeter o povo ao poder econômico de oligarquias que reinam soberanas. Mudaram as perucas e as máscaras, mas os nobres continuam controlando o poder e os pobres financiam suas perucas.

A diferença talvez esteja no fato de ninguém saber ao certo hoje quem é o detentor do poder. Ao invés do rei e dos nobres, o invisível e fluido capital, dita suas vontades, controlando as cordas do poder e dando voz aos políticos que ocupam a cena pública. As decisões continuam sendo tomadas fora da esfera pública pelos verdadeiros titulares do poder. Vivemos à sombra de mestres que controlam marionetes.

 

 

Soraya Lunardi

Professora de direito público da Unesp

 

Dimitri Dimoulis

Professor de direito constitucional da Escola de Direito de São Paulo da FGV

ATUALIDADE EM VERSOS

Alvaro Santos Simões Junior

 

Maganão enriquecido

livre das grades saiu;

agradece ao justiceiro

e canta-lhe ao pé do ouvido:

– Tem que manter isso, viu?

 

Madame cheia de joias,

querendo chegar a mil,

abraça o governador

e canta-lhe ao pé do ouvido:

– Tem que manter isso, viu?

 

Empresário muito rico

vê leis bem ao seu feitio,

cumprimenta o deputado

e canta-lhe ao pé do ouvido:

– Tem que manter isso, viu?

 

Político experiente

visa ao trono do Brasil;

procura o pato amarelo

e canta-lhe ao pé do ouvido:

– Tenho de ter isso, viu?

 

Pobre trabalhador teme

perder de fio a pavio

direitos, paga e lugar;

resta-lhe na rua gritar:

– Tem que manter isso, viu?

 

Alvaro Santos Simões Junior possui graduação em Letras – Português/Inglês (1990), licenciatura em Italiano (1993), mestrado (1995) e doutorado (2001) em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e pós-doutorado pela Universidade de Lisboa (2011). Atualmente é professor assistente doutor II da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: periódicos, parnasianismo, decadentismo-simbolismo, realismo-naturalismo, crônica e sátira. Até 2017 responde pela coordenação do Programa de Pós-Graduação em Letras da citada Faculdade. (Fonte: Currículo Lattes)

A França sob domínio do Islã

A morte de Antonio Candido reacendeu algumas discussões sobre a natureza e características da crítica que podem interessar de maneira especial a quem queira se ocupar da literatura contemporânea, mais proximamente daquela que já foi designada como literatura pós-moderna.
Nesse panorama a obra de Michel Houllebecq vem obtendo destaque desde pelo menos o ano de 2009 quando o autor recebeu o principal prêmio literário da França (Prêmio Goncourt). Segundo Antonio Candido, devem ser expressamente consideradas pela crítica, para a compreensão de uma obra literária ou artística, as circunstâncias históricas e sociais de sua composição. Tal observação nos parece algo óbvio, se tomarmos uma visada de distanciamento da atividade crítica, isto é, se não escrevemos textos om objetivo crítico-estético. Para quem se atreve a escrever sobre arte, porém esse aspecto é muito mais do que um detalhe e se torna uma grande dificuldade.
No caso de “Submissão”, a polêmica obra de Houllebecq lançada em janeiro de 2015 na França e em abril do mesmo ano no Brasil pela editora alfarábia, as cisrcusntâncias históricas e culturais destacadas por Candido não poderiam ter sido mais perturbadoras.
A obra veio à público exatamente na mesma semana do atentado terrorista ao Charlie Hebdo. A conexão infeliz ficará evidente ao leitor ao saber que “Submissão” é uma ficção política (distópica?) que imagina a França, em 2022, em plena ascensão de um político islâmico à presidência.
O contexto histórico e social, portanto, não poderia ser mais complexo. A França vive, sabemos, vários influxos de conflitos culturais baseados na tensão entre aspectos do dogmatismo da cultura islâmica e a tradição cultural francesa, vista como espécie de símbolo da Europa iluminista, do livre pensamento, da democracia, que seriam em certo sentido, as bases de um comportamento direcionado à tolerância à diversidade cultural. Como sabemos, as coisas se resolvem bem melhor nas palavras (ideais) do que em nossas ações cotidianas. O universalismo idealista do esclarecimento esbarra sempre nos aspectos mesquinhos, singulares, de nossa mente.
A obra de Houllebecq incorpora de maneira exemplar essas contradições. O autor é considerado pela crítica como um exemplo clássico da escrita pós-moderna. Mas o que significa essa designação? François Lyotard, na obra que talvez seja a mais citada como um estudo inicial dos efeitos do desgaste de princípios da modernidade “A condição pós-moderna” caracteriza a pós-modernidade como uma decorrência do descrédito ou da morte das chamadas grandes narrativas totalizantes. Tais teorias ou visões de mundo seriam fundamentadas na crença no progresso e nos ideais iluministas entre o quais os famosos figuram a liberdade e a fraternidade.
O diagnóstico um tanto sombrio da pós-modernidade é conhecido, a liberdade não se efetiva em uma sociedade na qual novos instrumentos de dominação cultural e política se manifestam ciclicamente, a fraternidade parece distante assim como Teerã está distante de Washington e a Europa do resto do mundo e a igualdade, bem, é melhor paramos por aqui…
A partir desse panorama surgem várias posturas intelectuais, entre elas o cinismo, uma espécie de niilismo sarcástico, um certo ceticismo esteticista e insensível às novas investidas do otimismo político e cultural. Esse tipo intelectual-psicológico é avesso aos diversos modismos da New Left, que seriam, na visão cínica, os herdeiros do esclarecimento e que teriam efetivado uma apropriação indébita dos ideais iluministas e os transformado em produtos culturalmente “veganos” sob a alegação de que teriam eliminado o terror e os gulags das antigas propostas de igualdade.
Em uma palavras eles são contemporâneos. Houllebecq é um cínico. Em Plataforma ele escreve pornograficamente sobre sexo, cinicamente sobre fundamentalismo, e ceticamente sobre globalização. Seu personagem (alter ego?), Michel, é um burocrata do Ministério da Cultura Francês de 40 anos, viciado em peep shows, que empreende uma excursão à Tailândia em um roteiro de turismo sexual. No romance não se sabe se ele traça uma visão crítica do aspecto grotesco do turismo, essa característica tão prosaica da pós-modernidade e da atual liberalização das sexualidades ou se ele se coloca como o observador cínico do fenômeno.
Em Partículas elementares, Michel, um biólogo determinista, vive o declínio da sua sexualidade. Suas atividades são ir ao supermercado do bairro tomar seus tranquilizantes e se aventurar em atividades New Age, alternativas ao tradicionalismo religioso. O traço mais marcante e destacado por todo a obra é a incapacidade de Michel de desenvolver um relacionamento amoroso, sua existência é praticamente centrada em seu projeto de pesquisa e em algum entretenimento sexual nas horas de folga do trabalho. Essas características das personagens de Houllebecq incorporariam o que interpretou-se como a condição pós-moderna do herói, para usar um termo da literatura romântica. Naquele modelo, porém, o herói superava problemas épicos, arriscava a própria vida e morria em um ato nobre. Os personagens de Houllebecq se arriscam ao saírem de casa para ir ao supermercado comprar uma comida congelada.
Isto nos leva de volta à “Submissão”. O personagem deste romance é professor na Sorborne e divide seu tempo entre reuniões com poucos amigos intelectuais, um relacionamento amoroso sem futuro pois sua parceira é uma judia e a França ruma para a islamização, e o consumo de vinhos e comida congelada gourmet. O assombro que a leitura provoca se dá pelo processo através do qual o islamismo se impõe na sociedade e na estrutura política universitária francesa, maior ironia da obra.
Essa islamização improvável se dá, em primeiro lugar, por uma fraqueza do próprio sistema político francês, pela falta de energia política, por assim dizer, de certas tendências no jogo do poder. A crítica parece ser diretamente direcionada às tendências de tolerância cultural tanto da esquerda quando das facções de centro-esquerda. Da fraqueza do sistema político diante de um inimigo infiltrado, na visão de Houllebecq, resultaria um ambiente de ascensão de um político muçulmano de fachada humanista e progressista, uma aposta improvável no esclarecimento do oriente. Mas a surpresa e o horror vai se anunciando no final e se dá não apenas nas jogadas de marketing político.
A conclusão aponta, talvez, para a mais sórdida característica humana e essa foi a maior ironia de Houllebecq, uma tacada de genial de um cinismo triunfante e que, a meu ver, foi um aspecto pouco compreendido pela crítica em geral (o livro não teve tão boas apreciações). Essa corrupção islâmica dos padrões e princípios iluministas que seriam o estofo dos ideais do ocidente não se dá pela corrupção financeira e sim pelo aliciamento dos profissionais que ocupam cargos importante tanto na universidade quanto em cargos públicos de entidades relevantes.
O aliciamento se dá pela proposta de ingresso no mundo islâmico com conversão declarada oficialmente, mas com alguns benefícios de tolerância para os intelectuais da Sorbone (uso social do álcool, garantia de privacidade). Esta adesão garantiria posições no novo establishment político islâmico e se completaria com a possibilidade da “poligamia”.
No processo de convencimento efetivado pelo líder do partido em ascensão o personagem de Houllebecq é apresentado à várias mulheres de tenra idade que, uma vez tomado o passo final em direção à conversão, se tornariam suas esposas, belas, prestativas e submissas. Na distopia de Houllebecq o estado não usa a força, todo o processo de submissão ocorre entre o supermercado a universidade e a cama.
Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – Faac – da Unesp de Bauru.

Londres no século XIX

José Roberto Fernandes Castilho[1]

 

No dizer de Silvio Romero, ele é quase um estrangeiro para nós. Filho de rico comerciante português, o carioca Luís Guimarães Júnior (1845-1898) é considerado o precursor do parnasianismo na literatura brasileira com seu livro Sonetos e rimas, de 1880. Custeado pelo autor, o livro foi publicado em Roma, porque, nesta época, ele morava na cidade uma vez que era diplomata e chegou a ministro plenipotenciário. Formou-se em Direito, no Recife, em 1869 e em 1872, com 27 anos apenas, começou sua peregrinação diplomática, a partir exatamente de Londres passando depois pelo Chile, por Roma (onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, poeta introdutor do romantismo no Brasil), por Veneza. No final da vida, já aposentado, passou a residir em Lisboa, ficando sempre distante do Brasil.

 

Em suas memórias, o jurista Rodrigo Octávio (1866-1944) – membro fundador da Academia Brasileira de Letras – ABL, como, aliás, o próprio poeta – relata um grande banquete oferecido a Luís Guimarães no Hotel do Globo (rua Primeiro de Março, já demolido), em 1886, quando visitava o Rio. O banquete reuniu a “flor das nossas letras”; Machado de Assis presidiu a mesa principal e Joaquim Nabuco discursou e declamou um poema próprio. Rodrigo Octávio observa que, nesta época, o poeta “servia como Secretário de nossa Legação” em Lisboa e que seu livro tivera um “retumbante sucesso” (Minha memória dos outros, vol. 2, 1936). No entanto, hoje, autor e livro se acham quase que completamente esquecidos e, depois de longuíssimo hiato, a ABL reeditou os versos em publicação de 2010, tornada disponível no sítio da Academia.

 

Integrando aquele livro, o soneto de Londres está entre as produções poéticas mais importantes e significativas de Guimarães Júnior – tanto por aspectos formais (as aliterações ou a rima interna do 4º verso, por exemplo, acompanhada do paradoxo consoante do “verme enorme”) quanto no próprio conteúdo que resulta da visão de observador participante, para quem “o mundo visível existe”. Este é o ponto a destacar: o “calor emocional” da obra. Conhecida pelo poeta desde 1873, Londres, que no final do século XVIII tinha cerca um milhão de habitantes, em 1851 chega a 2,5 milhões de habitantes, superando a população de qualquer outra cidade do mundo antigo ou moderno. Caput mundi, a Roma imperial, com população de cerca de um milhão de habitantes no auge do seu esplendor, foi a maior cidade da Antiguidade.

 

Em Londres, a desordem e a miséria tornam-se protagonistas da cena urbana: é o espetáculo da pobreza. As desastrosas conseqüências sociais do crescimento acelerado provocado da Revolução Industrial geraram aquilo que o poeta escocês James Thomson chamou, num título famoso, “cidade da noite apavorante” (“city of dreadful night”). O longo poema sombrio – ou “gótico” – de Thomson, publicado num jornal em 1874, trata do horror da cidade vitoriana a partir de Londres, com sua massa de “andarilhos espectrais da noite ímpia”, “escuros, escuros, longe do brilho e da alegria” (“Oh dark, dark, dark, withdrawn from joy and light!”).

 

Há coincidências interessantes a destacar: os poemas de Thomson e de Guimarães Júnior foram publicados em livro no mesmo ano (1880), e cuidam do mesmo tema – se bem que o segundo com menor intensidade que o primeiro -, destacando o crescimento da miséria e dos miseráveis na cidade opulenta, onde a atividade econômica é febril. Daí a imagem comum da cidade noturna, que, na obra do brasileiro, em meio à “dúbia claridade” dos lampiões dorme sob uma “névoa estranha”, ouvindo o Tamisa, rio escuro, fantasmagórico, a bater contra o “cais solitário”. Emulando as pessoas, o rio “geme convulso e espuma” voltando depois a gemer. O notável soneto, em versos decassílabos (heróicos e sáficos, combinados), é todo construído no jogo das oposições entre “ouro” e “pão”, entre “fome” e “indústria”, entre “gigante” e “verme”, até chegar no fecho do verso final que exclama, indignado: “Oh milionária Londres indigente!”. Destaque-se a fusão de “melopeia” (a música) e “logopeia” (a ideia) do verso – como de resto de toda a composição -, nos termos propostos por Ezra Pound.

 

É a mesma “cidade da noite apavorante” vista por um poeta brasileiro. E há nele a revelação artística das próprias contradições do capitalismo: a indústria poderosa, “ingente”, produz a Londres indigente, pobre, miserável, repleta de “vultos” que são os mesmos “spectral wanderers” de Thomson. A fome nela rasteja. Estes “vultos cautelosos” querem pão ou, no mistério da noite, procuram “os gozos”, numa referência à prostituição – inclusive infantil – que era um modo comum de sobrevivência da mulher e da sua família, como se lê em Charles Dickens. A imagem eloqüente (porque igualmente paradoxal) do “gigante suarento”, logo no verso inicial, explicita aquela contradição de modo ainda mais concentrado: uma potência que trabalha. A Inglaterra era então tida como a “oficina do mundo” e é dessa realidade – apreendida por Guimarães Júnior – que trata o poema, com sua musicalidade ondulante.

 

Cabe destacar ainda que, bem ao contrário dos outros parnasianos posteriores – sobretudo o trio famoso composto por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia -, o vocabulário do poeta é simples e o seu sentido direto e concreto (não há meras sugestões ou apenas criação de atmosferas, como faziam os românticos), reforçando o impacto do soneto cuja força expressiva permanece íntegra até hoje. Isto se ele fosse lembrado: o poema de Thomson – cuja força foi logo vista – é fartamente citado (v., por todos, Peter Hall) e muitas vezes reproduzido juntamente com as gravuras célebres feitas por Gustave Doré em 1872, enquanto o soneto de Guimarães Júnior – da mesma época, com o mesmo tema e elevada qualidade – não só não é citado como, pior, é quase desconhecido entre nós e precisaria ser resgatado.

 

 

“Londres”[2]

 

Como um gigante suarento, dorme

Nos pardos mantos duma névoa estranha,

A Cidade opulenta em cuja entranha

Rasteja a fome como um verme enorme.

 

Dos lampiões à dúbia claridade,

Passam, repassam vultos cautelosos:

Este procura no mistério os gozos,

Procura aquele um pão, na realidade.

 

Contra o cais solitário o rio escuro

Geme convulso e espuma – e novamente

Volta a gemer, de encontro ao velho muro;

 

Retine o ouro: – vela a Indústria ingente,

Cresce a miséria e aumenta o vício impuro…

Oh milionária Londres indigente!

 

[1] Professor de Direito Urbanístico da FCT/Unesp.

[2] Extraído, como os demais, de Sonetos e rimas, 4ª ed., Clássica: Lisboa, 1925. Prefácio de Fialho D’Almeida. Foi também consultada a 2ª ed., de 1886, igualmente publicada em Lisboa. O texto foi confrontado com a edição imperfeita da ABL, de 2010, que está disponível em meio digital: http://www.academia.org.br/publicacoes/sonetos-e-rimas.

Museus e Mudança Social

Paulo Henrique Martinez é professor do Departamento de História da Unesp de Assis

 

O Dia Internacional dos Museus – 18 de maio – foi instituído há 40 anos. Criado pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), trata-se de iniciativa destinada a promover instituições museológicas, acervos, coleções e o patrimônio cultural e natural em conjunto. Anualmente, museólogos, técnicos, pesquisadores, visitantes e o público interessado em exposições e atividades museológicas desenvolvem e participam de inúmeras atividades realizadas com esta finalidade ao redor do mundo.
Ao longo destes anos os museus ganharam grande visibilidade pública, aproximaram-se do cotidiano escolar e dos debates sobre temas da vida cotidiana. O patrimônio cultural e natural das sociedades tem sido amplamente divulgado e reexaminado por estudiosos, recebe tratamento técnico constantemente aprimorado pelas novas possibilidades no âmbito da conservação, das exposições e das pesquisas sistemáticas. Os benefícios institucionais e coletivos são inegáveis e alimentam as relações dos museus com diferentes públicos, de distintas gerações, condição social e graus de escolaridade.
Esta ampla abertura e contínua oferta de oportunidades para conhecimentos, lazer, ensino, pesquisa, informação e integração social renovam e fortalecem o direito à cultura, em geral, à memória e verdade histórica, em particular. Ao promover o debate e a reflexão da diversidade cultural e biológica existente no planeta, os museus e seus profissionais contribuem diretamente na realização da cidadania em países que, a exemplo do Brasil, são marcados pela pobreza, a discriminação e a violência social.
A abrangência e a multiplicidade de experiências alcançadas pela mobilização dos museus – em milhares de instituições, dezenas de países e milhões de pessoas – permitem conhecer o papel e o potencial desta instituição na mudança cultural e social programadas. São muitas e emblemáticas as ações, por exemplo, de movimentos indígenas que recorrem à linguagem museológica na reafirmação de suas identidades étnicas, na recuperação de elementos da vida material, social, simbólica e religiosa e, principalmente, na legitimação de direitos às terras ancestralmente habitadas.

Nas áreas urbanas a presença dos museus é numerosa e variada. As modalidades de expressão e as experiências na linguagem museológica para a preservação, exibição e difusão cultural envolvem diferentes segmentos sociais, conferindo identidade e originalidade à museologia praticada no Brasil. Esta crescentemente destaca-se pelas suas ações criativas, críticas e pedagógicas, cristalizando uma museologia social altamente qualificada e prestigiada nacional e internacionalmente.
O tema proposto para 18 de maio de 2017, Dia Internacional dos Museus, associa a memória e a criatividade, museus e mudança social. Nesta aproximação são apontados caminhos com os quais a comunidade de museus e seus agentes operacionais, em diferentes países, possuem reconhecida familiaridade. O destaque, sem dúvida, é o constante aprimoramento de desempenho na realização de ações educativas em museus.
O interesse pelas possibilidades educacionais nos museus alimenta a construção de estratégicas pedagógicas centradas no diálogo e na compreensão da diversidade cultural, física e biológica das sociedades humanas. A disponibilidade de recursos tecnológicos na comunicação e na difusão de conhecimentos e da informação alargou o campo e o foco de experimentação nos museus. As diferentes gerações contam na atualidade com múltiplas e dinâmicas formas de contato com o patrimônio cultural em todo o mundo. As relações entre o passado e presente tornam-se mais evidentes, perceptíveis e elucidativas.
A vitalidade educativa e de comunicação dos museus proporciona outras relações com os espaços habitados ou não, aproximando os museus e a museologia de territórios e de grupos sociais diversificados, como terras indígenas, favelas e comunidades rurais e longínquas áreas naturais do planeta, como as regiões polares, florestas e desertos e suas populações. As questões do meio ambiente, da sustentabilidade, da cooperação técnica interinstitucional e internacional conhecem amplitude e difusão sem precedentes, qualificando os debates e promovendo a participação social em escala mundial.
O acesso às instituições e interpretações do patrimônio assegurado pelas tecnologias de comunicação e as estratégias pedagógicas seguidamente renovadas fizeram dos museus ambientes dinâmicos, interativos e reflexivos, estabelecendo diálogos multifacetados nas escolas e universidades, nas comunidades rurais e urbanas, em grandes e pequenas cidades.

Sucessivas e criativas mudanças alcançam a valorização social e a conservação técnica de acervos e de espaços museológicos. Objetos e coleções, edifícios, instalações e equipamentos, são alvo de ações administrativas, técnicas e científicas que animam o trabalho de profissionais e ampliam os interesses do público espontâneo e organizado dos museus. A mudança social induzida torna-se mais palpável em conexão com museus.

Vale a pena ainda apostar na teoria do golpe?

Diante das gravíssimas denúncias que envolvem Temer, Aécio e “compagnia bela”, os arautos do golpismo trataram de não perder tempo em reafirmar as suas teorias, conclamando mais uma vez o povo a ir às ruas e pedir a renúncia do presidente em exercício. Que Temer deveria renunciar, ninguém discute, a menos que se considerem falsas as gravações do milionário dono da JBS, ou se acreditarmos numa conspiração tramada por petistas radicais inconformados com a “perseguição” contra Lula! Neste caso, os argumentos, fantasiosos e inconsistentes, repetiriam o raciocínio já gasto, fraco e simplista do eterno golpismo, da eterna conspiração, ora de americanos, ora da Rede Globo. Há quem veja nas histórias em quadrinhos do Pato Donald ou do Mickey uma ardilosa propaganda financiada pela CIA, com o apoio do FBI!

            Na verdade, tais teorias da conspiração e do eterno golpismo contra os defensores dos fracos e oprimidos (ou contra a democracia, contra a família e a propriedade, de acordo com o contexto histórico) escondem nossa imaturidade política. Embora respeite e compreenda perfeitamente os nobres propósitos de certos jornalistas e estudiosos, não concordo com os que defendem, aqui e no exterior, a nossa suposta e tão almejada maturidade política. A operação Lava Jato e outras mais apenas refletem apenas o trabalho árduo e eficaz de alguns magistrados e da Polícia Federal.

            Infelizmente, o que se vê na mídia, em parte do ambiente acadêmico e artístico e, sobretudo, nas opiniões veiculadas pelas redes sociais, com honrosas exceções, é o fanatismo típico de torcidas esportivas transposto para a análise política, o que não constitui apenas uma atitude irresponsável, mas também um possível e perigoso pretexto para que salvadores da Pátria entrem em ação, mobilizando, se preciso for, as Forças Armadas, como já ocorreu num passado não muito distante.

            Incrivelmente, quem ainda se refere ao suposto golpe deixa de considerar que tanto os deputados e senadores supostamente golpistas como a chapa Dilma/Temer foram eleitos pelo povo. Temer já foi útil para Dilma quando o PT visava à perpetuação no poder por meio de alianças com o que há de mais retrógrado nos partidos “liberais” e “conservadores”. Dilma já foi útil a Temer quando, sozinho, o PMDB não poderia chegar ao poder, sendo necessária uma aliança com os outrora “radicais petistas”, rapidamente (e convenientemente) elevados à categoria de amigos no combate comum contra a injustiça social.

            Há que se considerar, claro, a escassa conscientização e a baixa capacidade de discernimento da maioria da população na hora da escolha dos seus governantes, além da influência enorme da mídia, mas estes fatores não desvalorizam o único processo, por mais relativo e inconstante, de uma alternativa democrática a formas de governo baseadas na concentração do poder em um único homem ou num punhado de homens.

            A visão maniqueísta que separa mocinhos de bandidos, defensores dos operários e dos agricultores sem terra dos cruéis industriais e latifundiários, há muito deixou de ser uma lente adequada com a qual se pode observar um quadro político tão complexo de um país como o nosso, ainda imaturo e com baixíssimo nível de escolaridade. O momento requer domínio das paixões e lucidez na análise dos acontecimentos. Não há espaço para revanchismos ou pequenas vinganças pessoais, pois o vazio de poder que se estabelece nessa polarização radical pode facilmente ser preenchido por aventureiros, mesmo que sejam aventureiros habilitados pelo voto popular, tão sujeito ao calor do momento e à influência midiática, tão propenso a soluções drásticas e pouco lúcidas.

 

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

90 anos da teoria da incerteza de Heisenberg

Lembra de Heisenberg? Alemão, físico brilhante? Não tem problema se não, o importante foi seu legado científico. Sua famosa teoria que colocou a Física ao avesso comemora seus 90 anos. Há algumas personalidades aqui de Rio Claro que se utilizam desse conhecimento para a realização de suas atividades científicas na Cidade Azul.
O Princípio da Incerteza de Heisenberg afirma que se em determinado espaço há maior possibilidade (probabilidade finita) de se encontrar uma partícula (elétrons, prótons e nêutrons, por exemplo) não haverá, no entanto, certeza absoluta se a mesma estará ali de fato. A Física Quântica difere da exatidão dos cálculos que aprendemos em sala de aula no Ensino Médio, onde conseguimos determinar a posição e a velocidade dos corpos.
Tal disparidade da matéria é estudada pelo grupo de pesquisa liderado pelo professor do Departamento de Física do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE/UNESP – Rio Claro), Prof. Dr. Mariano de Souza. O coordenador do Solid State Physics Group e seus alunos investigam as propriedades da matéria em baixas temperaturas, utilizando técnicas experimentais até então inéditas no Brasil, segundo o coordenador. Beneficiado pelo financiamento de projetos de pesquisa pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), com recursos da ordem de 1 milhão de reais, o laboratório em que são realizadas as atividades de pesquisa possui um criostato que permite se atingir temperaturas na faixa compreendida entre 1,4 – 300 K (de cerca 271,75 graus negativos a 26,85 positivos na escala de temperatura Celsius) aplicando ainda campos magnéticos de até 12 T (Tesla, unidade de medida de intensidade de campo magnético). O sistema dissipa uma potência de cerca de 20.000 Watts, o equivalente a cerca de 5.000 lâmpadas incandescentes ligadas para manter o sistema funcionando continuamente. Os materiais explorados são principalmente condutores moleculares cristalinos, com alto grau de pureza, e supercondutores à base de ferro.
O desafio para os cientistas é encontrar um supercondutor (material que permite conduzir corrente elétrica sem resistência, ou seja, sem perdas de energia) capaz de atuar assim em temperatura ambiente. Isso leva a “ procura do ouro, que se iniciou em 1911, com a descoberta da supercondutividade no elemento mercúrio”, ressalta o professor. Neste caso, os estudantes do grupo e seu orientador tentam entender o porquê de certas ligas metálicas cumprirem esse papel de supercondutor em contraste com outras. Através de sínteses, ou seja, a produção desses metais em laboratório, variam as propriedades dos mesmos até notar modificações significantes. Quanto mais Física, ou melhor, quanto mais compreenderem a matéria, há maior possibilidade de empreender os resultados em produtos que beneficiarão a população, a exemplo de condutores nas linhas de transmissão de energia elétrica.
Ainda, resta a incerteza de quando se obterá um produto capaz de responder conforme as necessidades. Porém, os fenômenos estudados com o tempo dão luz para as manifestações fundamentais da Natureza.
Emily Gomes, estudante de Jornalismo da Unimep e Mariano de Souza, docente do Departamento de Física da Unesp-RC e coordenador do Solid State Physics Group (www.rc.unesp.br/mariano)

E agora, Brasil?

O certo (democrático e legítimo) é devolver o poder de decisão ao povo, convocando eleições presidenciais diretas. Porém, também existe o errado (não necessariamente ruim para a estratégia eleitoral e política da esquerda) que é Michel Temer renunciar agora e esse Congresso conservador colocar como presidente do Brasil alguém simpático ao PMDB-PSDB e que vá fazer avançar o programa anti-trabalhista que Temer já vinha promovendo.

Essa segunda opção é um absurdo! É imoral, golpista e acaba de destruir a democracia atual. Porém, esse aprofundamento do golpe e a violência com que ele está sendo imposto sobre o país irá gerar um movimento social de resposta. Tal reação popular se dará na medida da força do golpe, nunca menor.

Enfim, os golpistas escolheram o caminho do crime: eles derrubaram Dilma sob um pretexto desproporcional, promovem um governo impopular e ilegítimo, tentam prender Lula, o político mais aclamado do país, sem provas, e agora fecham o golpe de modo grosseiro, com a renúncia de Temer e empossamento de mais um golpista no seu lugar.

Ora, isso não ficará sem resposta! A maioria dos brasileiros reagirá, no voto ou na força (ou ambos), contra esse Congresso conservador e contra a usurpação da presidência da República. No fim, a esquerda voltará ao poder central.

Wellington Anselmo Martins

Mestre em Comunicação (Unesp), graduado em Filosofia (USC).

O silêncio que viola o futuro do país

Floriano Pesaro, secretário de Estado de Desenvolvimento Social de São Paulo

A violência sexual infantil é cercada por medos e omissões. As situações de abuso podem ser caracterizadas pelo chamado “pacto do silêncio” entre o agressor e a vítima, o que propicia a continuidade do crime e sua consequente impunidade. Dessa forma, mostra-se a necessidade que pais, responsáveis e os profissionais estejam atentos aos sinais de alterações de comportamento das crianças e adolescentes. Esses indícios se mostram nas mudanças de humor, ou nas agressões que muitas vezes são ocultadas pelas vítimas.

A curto e a longo prazo, o abuso sexual causa consequências irreversíveis, com alterações físicas, comportamentais, emocionais, sociais e sexuais. Dificuldades de relacionamento, depressão, baixo autoestima, distúrbios sexuais e, inclusive, tentativas de suicídio. Esses são fatores que podem se desenvolver em jovens que, desde cedo, vivenciam situações de violência.

A questão é tão presente em nossos dias que neste momento a série mais comentada da televisão é a “13 Reasons Why”, na tradução em português, “Os 13 Porquês”, que tem como roteiro uma adolescente que planeja de forma detalhada os motivos do seu suicídio. A história é contada a partir de treze fitas cassete que ela deixa para pessoas consideradas cruciais em sua decisão de abandonar a vida. O machismo e o estupro são um dos principais tipos de abusos sofridos pela protagonista Hanna Baker.

Apesar de haver várias polêmicas entorno da ficção, o drama mostra como a cultura do estupro e o bullying estão presentes no cotidiano destes jovens em todo o mundo. O que talvez não chame a atenção dos telespectadores é que todo o sofrimento não foi compartilhado em nenhum momento com os pais e o silêncio foi a sua principal causa de morte.

Outra forma de violência é a exploração sexual, que acarreta na remuneração à criança, ao adolescente ou às outras pessoas envolvidas no crime. Neste sentido, meninos e meninas são tratados como objeto sexual e mercadoria, o que pode ocasionar gestação e abortos inseguros seguidos de morte. Suas vidas, seus sonhos e seus futuros são roubados.

Em 2016, o Estado de São Paulo recebeu 2.300 denúncias de violência sexual infantil, de acordo com o Disque 100 de Direitos Humanos do Governo Federal. Só na capital, foram 713 casos. Como cada denúncia pode conter mais de uma violação de direitos, o número total recebido foi 2.599. A maioria dos casos são de abuso sexual e exploração sexual, que correspondem a 1.897 e 457, respectivamente. No Brasil, foram feitas, no total, 15.708 denúncias relacionadas à violência sexual de crianças e adolescentes no período.

As estatísticas dão uma pequena mostra da gravidade do problema. O receio em denunciar e a grande subnotificação dos casos permitem que abusadores continuem impunes.

Durante o mês de maio, lembrado pelo Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a Secretaria de Desenvolvimento Social distribuiu mais de 15 mil cartazes por vários serviços públicos, nas redes sociais e diversos estabelecimentos comerciais no Estado de São Paulo para chamar a atenção da população. As denúncias destes crimes podem ser feitas anonimamente por meio dos telefones gratuitos “Disque 100 ou 181”.

São Paulo atua com afinco por meio do CONDECA (Conselho Estadual dos Direitos da Criança e Adolescente no Estado de São Paulo), como também nos serviços ligados à Proteção Social Especial. Com isso, o Governo apoia projetos de amparo e resgate de crianças e adolescentes vítimas das mais nefastas formas de abuso sexual. Um deles é o serviço de “Prevenção, Capacitação nas Situações de Violência e Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes”, do Instituto Sedes Sapientiae, que viabiliza a implantação de polos de prevenção ao abuso de crianças e adolescentes.

Com a proposta de atingir diretamente 2.050 pessoas, o programa capacita profissionais para identificar o problema e fazer o encaminhamento adequado. As ações visam sensibilizar e mobilizar crianças, adolescentes, pais e responsáveis para que sejam agentes multiplicadores de informações. Esses espaços incentivam a criação e a participação de debates para ampliar o conhecimento dos temas relacionados à cidadania e direitos desses jovens.

É necessário dar às nossas crianças e adolescentes o direito de brincar, crescer de forma saudável, se desenvolver e conviver com sua família e comunidade. Aos que sofreram com abuso e exploração sexual, vamos devolver a vida, os sonhos, os estudos e o futuro. Às demais crianças e adolescentes, devemos educá-las e agir de modo a combater estes problemas.

Quanto mais conversarmos com nossos filhos diminuiremos os riscos e o sofrimento de ameaças e humilhações. Todos os anos o futuro do país tem sido violado pelo silêncio de meninos e meninas. Somente uma sociedade comprometida poderá garantir a proteção de crianças e adolescentes para a garantia de uma vida digna e feliz.