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Lembra do Menino Maluquinho?

Lembra do menino Maluquinho? Criado por Ziraldo em 1980, o livro é um marco com mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos. Mas o que ele te a nos ensinar hoje? A ultima frase traz uma chave: “E foi aí que todo mundo descobriu que ele não tinha sido um menino maluquinho. Ele tinha sido um menino feliz”.

Parece que a sociedade perdeu essa capacidade de preservar a felicidade mental. É claro que problema não faltam nas nossas mentes, casas, famílias, país e mundo, mas, acima de tudo, há a ausência de encantamento no cotidiano. E cada um de nós pode retomar essa fantasia.

A proposta pode parecer ingênua – e certamente é em diversos aspectos, mas busca apontar para um dos grandes fascínios do personagem de Ziraldo, a capacidade de inventar. O polêmico filme ‘A vida é bela’, por exemplo, de Roberto Begnni, tangencia a questão de uma outra forma, é claro.

Mas existe em comum a preservação do sorriso no rosto e do coração, a capacidade de manter o deslumbramento da infância para sempre dentro de nós e a convicção de que crescer e ter dificuldades são questões que, sim, podem nos impedir de voar. A capacidade de ser felizes, mesmo quando tudo parece conspirar contra, nos salva, como aponta Ziraldo.

Oscar D’Ambrosio é Doutor em Educação, Arte e História da Cultura e Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, onde atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa. 

Realidade dos Direitos Humanos

O Brasil chega ao século XXI com realidades sociais que são vistas como meras abstrações. As ficções jurídicas são tidas como verdades sólidas e reais. Enquanto isso, ao passo que se luta por um equilíbrio social, com relações menos conflituosas, encontramos um cenário caótico na cidade São Paulo, a mais rica da América do Sul, uma das maiores do planeta. Na mesma região sul da cidade, encontramos o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) variando entre 0,944 – Moema, comparável à Noruega (primeiro país no ranking global) e 0,651 – Engenheiro Marsilac, similar ao Iraque (121° colocado); dados esses aferidos em 2010. Porém, de Moema a Marsilac, são cerca de 50km de distância; da Noruega ao Gabão são pouco mais de 6.800km.

Nesse contexto abissal, encontramos ainda a dificuldade em se compreender quê pessoas são amparadas pelos Direitos Humanos, que atribuem humanidade aos direitos, ao invés de serem direitos para seres humanos. Essa aparente ironia expõe uma realidade muito dispare na qual alguns pouquíssimos são tidos e tratados como sujeitos de direitos, que possuem e usam os direitos que asseguram o desenvolvimento e qualidade humanas e a casta das multidões: alheios, esquecidos e alienados dos mesmos direitos. Tais serão os que receberão a mera percepção de serem personagens de direitos: são figurantes nas relações sociais e no sistema econômico e dinâmica atuais, o ter estará à frente do ser, resultando em multidões de sub-humanos.

Mas falamos até esse ponto daqueles que a própria Constituição Federal (1988) trata como sendo humanos. Segundo seu artigo 5°, inciso I diz com clareza: “homens e mulheres são iguais […]”. Há os que defendem que o documento legal foi elaborado na ampla concepção de que ao se referir aos homens e mulheres, englobar-se-iam todas as pessoas. Não obstante, o documento que, em teoria, serviu como uma inspiração para a mesma, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, fala sempre em seres humanos e pessoa, jamais sobre homem ou mulher. O que não foi captado pelos constituintes em 1988 é atualmente uma causa de severas disputas, violências físicas, simbólicas e morte de pessoas que não estão enquadradas.

Na verdade, a pluriculturalidade brasileira é tão extensa quanto seu território e, no embate entre os interesses da indústria da cultura, das culturas de massa e da cultura popular, cabendo-nos questionar por quê motivos o Brasil segue tão apensado aos padrões arcaicos, que tiveram seu tempo e contexto, mas que não encontram mais espaço na sociedade pós-moderna. Aliás, precisamos buscar uma definição do que é cultura ou do que são as culturas que definem a identidade do povo brasileiro e de suas inúmeras populações.

Considerando o que é exposto pela teoria psicanalítica de Jung, o que poderíamos esperar de pessoas que exaltam pessoas historicamente conhecidas pelas suas práticas de abusos e violência contra pessoas durante os anos de colônia que o Brasil viveu? Na verdade, o pensamento social brasileiro está adaptado à violência, assim como estamos adaptados ao respirar, alimentar e hidratar do dia a dia. Essas necessidades inerentes ao ser humano se entrelaçam hoje com as perturbantes taxas de violência criminosa.  Os arquétipos a que Jung fez referência são basicamente as estruturas inatas que servirão de matrizes na expressão e desenvolvimento da psique humana. Mesmo sendo sistemas dinâmicos e autônomos, em alguns casos, são considerados como sistemas separados da personalidade. Assim, embora não se possa perceber precisamente a origem de certos comportamentos, pode-se perceber pelo comportamento a existência dos arquétipos. Ou seja, um país que é fundado sobre um sistema de dominação violento, transmitirá, ainda que inconscientemente esse tipo de comportamento às suas gerações.

Portanto, não é algo incomum que pessoas não ajustadas à linearidade ou homogenia sejam estrategicamente extirpadas do corpo social. Não fazem parte daquele sistema por não estarem ajustadas ao senso comum.
Dado o fato de que há uma relação quase simbiótica do Direito e todas as suas áreas com a filosofia Kantiana, não é algo incomum que mesmo os Direitos Humanos sejam seletivos quanto a que humanos ele pode atender. As questões morais se sobrepõem às relevantes proposições éticas e a consequência disso é termos, ao invés do Imperativo Categórico de Kant, o atual imperativo categorizante, que classifica e separa as pessoas segundo padrões normativos específicos e excludentes. Como são pessoas que não se enquadram na possibilidade do lobby político e econômico, sofrem as constantes violações de direitos, se é que algum dia tiveram acesso a tais. A ideologia da violência, sempre presente, desde a infância com suas imposições condicionantes, cerceiam a liberdade, exterminam a fraternidade e exaltam que só há igualdade para os iguais porque onde há diferentes, não é possível admitir os não iguais.
Consolida-se, portanto, a nossa sustentação de que os chamados Direitos Humanos atenderão apenas os que estiverem conformados às concepções sociais do que é considerado plausível ou não.

Renan Antônio da Silva: É doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, UNESP – Araraquara. Realizou estágio doutoral com bolsa CAPES/PDSE junto ao Centro em Investigação Social (CIS/ISCTE-IUL), em Lisboa/Portugal, na linha temática Gênero, Sexualidades e interseccionalidade (2015-2016), sob processo de número 99999.006746/2015-02. É mestre em Desenvolvimento Regional, na linha temática Políticas Públicas (2014). É Cientista Social (2012), com ênfase em pesquisas antropológicas.

Como tirar suas ideias do papel e empreender ?

Muita gente quer empreender e tem várias ideias, mas inventa uma série de desculpas para não colocá-las em prática. Por que isso acontece? Quando se trata de abrir um negócio, tirar os planos do papel nem sempre é uma tarefa fácil, mas, se feito da maneira correta, pode render boas experiências.
Fazer as ideias acontecerem requer diversas considerações, porém quero elencar aqui as que considero mais importantes:
– Avalie se você tem a solução de um problema: Se o produto ou serviço que você está disposto a oferecer não resolve algum problema, ninguém compra. Empresas mundialmente reconhecidas já lançaram produtos com boas propostas, mas que não foram sucesso de vendas simplesmente porque não eram necessários para ninguém. Em casos assim, as pessoas podem até achar sua ideia legal, mas não aderem a ela. O primeiro passo, então, é encontrar uma ideia que resolva um problema e transformá-la em oportunidade.
– Divida suas ideias em partes menores: Muitas vezes, as pessoas querem fazer coisas demais. Suponhamos que alguém queira começar um negócio que produz comida para cachorro: essa ideia pode ser útil para muita gente. Mas, nessa situação, não adianta começar com dez sabores diferentes. A princípio, produzir um ou dois e trabalhar para aperfeiçoá-los é o ideal. O mesmo se aplica a diversos outros produtos e serviços.
– Faça uma pesquisa de mercado: Antes de colocar qualquer coisa no mercado, é importante conversar com seus potenciais consumidores e entender se eles realmente precisam desse negócio, se têm sugestões. Assim você refina o seu produto antes mesmo de começar a fazer e erra menos, pois já tem uma noção do que o seu consumidor precisa de verdade.
– Crie um plano de execução: Para que as coisas aconteçam de verdade, é importante encontrar pessoas que te ajudem e para as quais você possa delegar tarefas. Criar um protótipo mínimo e levantar um índice de satisfação de um grupo por meio de pesquisa são, a princípio, ações fundamentais.
– Gere tração com o público-alvo: Isso tem a ver com “empurrar” o seu produto, pensar em estratégias para vendê-lo. A maioria das empresas, especialmente as startups, não morre por falta de boas ideias, mas por falta de vendas.
Ideias, por melhores que sejam, não rendem bons resultados sem uma boa execução. Se você quer estar à frente de um empreendimento de sucesso, prepare-se para dar o primeiro passo.

Christian Barbosa é o maior especialista no Brasil em administração de tempo e produtividade e CEO da Triad PS

Intolerância nega a Democracia

Joao Baptista Herkenhoff
Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-la. (Voltaire).
François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, foi um filósofo humanista francês, um dos maiores vultos do Movimento Iluminista. Amante da polêmica, algumas de suas frases, propositadamente radicais, como a que abre este texto, tornaram-se célebres.
A advertência de Voltaire é bastante oportuna no Brasil de hoje, que apresenta o quadro a seguir descrito.
Partidários de uma determinada corrente de pensamento supõem deter a verdade. Quem diverge está errado.
Os seguidores da corrente contrária também acreditam que são titulares do bom caminho, motivo pelo qual etiquetam como réprobos os divergentes.
Através da internet formam-se grupos de pressão virtual. Isto é democrático.
Quando a divergência mantém-se no debate verbal – eu sei, você não sabe – está em bom tamanho, sem maiores consequências.
Pior é a situação que ultrapassa a tertúlia da discussão civilizada.
O oponente é inimigo da Pátria, um traidor, um abutre, deve ser silenciado por bem ou por mal.
Algumas vezes, dentro de uma mesma família, ou entre vizinhos, ou entre frequentadores de uma mesma igreja, explode a ira, que não é nada santa.
Nesse clima de intolerância, está fazendo falta, na atualidade, um líder como Tancredo Neves, capaz de colocar lado a lado dois inimigos históricos, ou duas facções extremas, para celebrarem o abraço da paz.
Tancredo foi o principal protagonista da passagem da ditadura para a Democracia, no Brasil contemporâneo.
Mas, se não temos Tancredo, estamos perdidos?
Creio que não. Existe a opinião pública que pode pressionar e exigir o entendimento.
A opinião pública somos todos nós.
Podemos juntar nossas vozes, de norte a sul do território brasileiro, para expressar em pequenas reuniões (de bairros, de grupos profissionais) e através da coluna de cartas dos leitores dos jornais ou de cartas endereçadas a parlamentares, que não queremos um Brasil fratricida, mas sim um Brasil fraterno.
A fraternidade não exige a identidade de pensamento, mas sim a compreensão e o respeito entre as pessoas.
Divergência democrática é uma coisa. Fúria quase homicida, furor sem limites é outra.
A liberdade de expressar o pensamento, sem censura, sem perseguição, foi uma conquista do povo, após a longa ditadura que se abateu sobre o pais, a partir de 1964.
Deveremos celebrar a liberdade reconquistada, sem desvio de rota, ou seja, podemos opinar sem amarras mas devemos reconhecer no outro, no oposto, a mesma franquia.
João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado (ES) e professor.

A POLIVALÊNCIA DO CORRETOR DE IMÓVEIS

A considerável redução da quantidade de Corretores de Imóveis nos plantões de lançamentos, aguardando clientes para negociar uma proposta e servir um café, no momento é comum. Nesse sentido, com foco no empreendedorismo, a categoria tem o conhecimento que está superado à possibilidade de alguma empresa do seguimento imobiliário limitar suas atividades.

Desse modo, segundo o artigo 3º e seu parágrafo único da Lei nº 6.530, de 12 de maio de 1978, como podemos refletir:

“Art 3º Compete ao Corretor de Imóveis exercer a intermediação na compra, venda, permuta e locação de imóveis, podendo, ainda, opinar quanto à comercialização imobiliária.

Parágrafo único. As atribuições constantes deste artigo poderão ser exercidas, também, por pessoa jurídica inscrita nos termos desta lei.”

Dessa maneira, a profissão possui amplo campo para atuação, os inscritos no CRECI podem trabalhar por conta própria ou prestar serviço em imobiliária, construtora, empresa de loteamento, banco, órgão público e judiciário. Na realidade, diante deste mercado cada vez mais competitivo, a polivalência do corretor de imóveis impulsiona o profissional da corretagem a se especializar em mais de uma das áreas disponíveis da intermediação imobiliária, podendo atuar na compra, venda, permuta, locação, administração de condomínio, avaliação e consórcio.

Cuida-se de analisar o artigo 728 da Lei nº  10.406, de 10 de janeiro de 2002, a saber:

“Art. 728. Se o negócio se concluir com a intermediação de mais de um corretor, a remuneração será paga a todos em partes iguais, salvo ajuste em contrário.”

É importante considerar a preocupação da entidade que disponibiliza inúmeros cursos e palestras aos inscritos, com o proposito de auxiliar no desenvolvimento da categoria conforme dispõe a Resolução do COFECI n.º 326/92, em especial o disposto no artigo 2º:

“Art. 2°- Os deveres do Corretor de Imóveis compreendem, além da defesa do interesse que lhe é confiado, o zelo do prestígio de sua classe e o aperfeiçoamento da técnica das transações imobiliárias.”

Portanto, como empreender faz parte do dia a dia do Corretor de Imóveis, o interessado em aprimorar o conhecimento pode participar dos eventos oferecidos gratuitamente pelo Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de São Paulo, disponíveis em sua Sede, Delegacias, TV CRECI e canais através das Redes Sociais pela internet.


ANTONIO CARLOS VICENTE DE OLIVEIRA
Perito Avaliador de Imóveis
CNAI-COFECI nº 7.225
CRECI-SP nº 69.455-F

Conselho a um ex-aluno

João Baptista Herkenhoff

 

Professor não se aposenta. Ainda que seja declarado como aposentado, legalmente aposentado, para o ex-aluno será sempre um professor.

Daí que, com frequência, este articulista, que já está na reserva há muito tempo, seja procurado por ex-alunos desejosos de uma orientação.

O mais recente pedido de ajuda veio de um brilhante ex-aluno, cujo nome omito porque não fui autorizado a registrar sua identidade.

Tendo em vista que sua dúvida é comum, decidi responder seu questionamento através de um artigo, cuja leitura possa ser útil para muitos.

Perguntou o ex-aluno se advogados e juízes são regidos pelo mesmo código ético.

Respondo pela negativa.

Há deveres que incumbem ao barrete do advogado e à toga do juiz: amor ao trabalho, cortesia, honestidade, zelo pelo contínuo aprimoramento cultural, aprumo no vestir-se, ainda que se vista com humildade.

Noutras rubricas, os deveres não são coincidentes: o juiz deve ser imparcial, o advogado é sempre parcial.

Juiz parcial não é juiz, envergonha seu ofício. O juiz é o fiel da balança. O pêndulo da toga não pode pender para um lado, em prejuízo do lado contrário. A imparcialidade deve estar acima de qualquer suspeita, de modo que o magistrado faça jus ao respeito da parte que é derrotada num julgamento.

Numa determinada situação, o juiz parcial pode receber palmas de quem se beneficiou de sua parcialidade. Na euforia da vitória, o vencedor aplaude. Mas depois que serenam as paixões do embate, aquele mesmo vencedor agradecido despreza o juiz parcial que enlameou seu sagrado ofício.

O advogado é sempre parcial, daí que se chama “advogado da parte”. Deve ser fiel a seu cliente e leal na relação com o adversário.

O juiz deve ser humilde. A virtude da humildade só faz engrandecê-lo. Não é pela arrogância que o juiz conquista o respeito da comunidade. Angaria respeito e estima na medida em que é digno, reto, probo.

O juiz deve ser humano, cordial, fraterno. Deve compreender que a palavra pode mudar a rota de uma vida. Diante do juiz, o cidadão comum sente-se pequeno. O humanismo pode diminuir esse abismo, de modo que o cidadão se sinta pessoa, tão pessoa e ser humano quanto o próprio juiz.

A função de ser juiz não é um emprego. Julgar é missão, empréstimo de um poder divino. Tenha o juiz consciência de sua pequenez diante da tarefa que lhe cabe.

As decisões dos juízes devem ser compreendidas pelas partes e pela coletividade. É perfeitamente possível decidir as causas, por mais complexas que sejam, com um linguajar que não roube dos cidadãos o direito de compreender as razões que justificam as conclusões.

 

João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado (ES) e escritor. Tem proferido palestras e ministrado seminários em faculdades, seccionais da OAB, igrejas etc.

Imaginem

Imaginem um candidato ideal para os dias atuais… Quais seriam as credenciais desejadas? Casado? Com filhos? Bem formado? Bem sucedido? Honesto? Solidário? Prestativo? Trabalhador? Compromissado com o seu eleitorado? Sim, essas são algumas características que provavelmente imaginamos sobre um candidato.

Poucos meses atrás um candidato com características desejáveis poderia ser o ex-procurador do Ministério Público Federal, Marcelo Miller. Isso mesmo, aquele procurador envolvido no caso JBS, agora investigado por obstrução às investigações e exploração de prestígio. Atuante até o início do ano no Ministério Público Federal de Brasília, o doutor provavelmente reunia boas credenciais para ser um bom candidato nas próximas eleições. Distante de ser um político profissional e sem um histórico de envolvimento em atitudes ilícitas, ele poderia ser considerado por muitos como uma pessoa acima de qualquer suspeita. Um bom salvador para a nossa pátria.

Agora, voltando para a realidade, qualquer pessoa é honesta até ser corrompida. Casos de corrupção envolvendo o Legislativo e Executivo estamos cansados de assistir nos noticiários. O destaque, então, é que estamos descobrindo casos de corrupção envolvendo outro poder da república, o Judiciário. Começam a brotar nos noticiários relatos de comportamentos suspeitos ou crimes cometidos por alguns de seus membros.

Diante de todos esses fatos, começo a perceber que mesmo com uma boa reforma política ou outras reformas essenciais, ainda teremos dificuldade em melhorar o país. Mesmo com um congresso renovado com as eleições de 2018, ainda podemos ver cenas de corrupção como as atuais. Isso porque o nosso sistema atual é, infelizmente, corrupto. O mocinho pode ser tornar bandido em um piscar de olhos.
Assim, o nosso problema é mais complexo do que imaginamos.

Uma solução para o crime de corrupção que esfola o nosso país seria não só a criação de leis mais rígidas para esse tipo de crime, mas principalmente a execução dessas leis de forma rápida e exemplar. Ilustrando, para crimes de corrupção envolvendo valores astronômicos a aplicação de pena máxima seria pertinente. Para a maioria da população os milhões de reais escondidos em apartamentos ou contas no exterior seriam mais bem aproveitados se fossem utilizados para salvar milhares de vidas nas filas dos hospitais públicos.

José Renato Campos é aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da Unesp e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.

 

Geddel roubou nosso futuro e matou a nossa alma

Hoje o Brasil acordou com um novo recorde: a apreensão feita ontem pela Polícia Federal em Salvador, BA, após contabilizada, revelou um número fabuloso: R$ 42.643,500 (quarenta e dois milhões, seiscentos e quarenta e três mil e quinhentos reais). Isso mesmo. Esse foi o total de reais apreendidos em um apartamento supostamente mantido pelo ex-ministro Geddel Vieira. E, se não bastasse essa alta soma, foram ainda apreendidos US$ 2,688,000.00 (dois milhões, seiscentos e oitenta e oito mil dólares).
Para o cidadão comum, como eu, o primeiro grande desafio quando escuto notícias como essa é pensar em quanto dinheiro isso representa. Mas ontem, com a divulgação da foto daquela sala cheia de malas e caixas (caixas!) de dinheiro vivo, pude ter uma vaga ideia.

Mas, o que leva um político a roubar desse jeito? Em “House of Cards”, seriado produzido e exibido pela Netflix, Frank Underwood, o congressista inescrupuloso, protagonista da série, logo nos primeiros episódios revela: “Certos políticos escolhem dinheiro, outros, poder”. E o caso de ontem deixa claro que Geddel é do primeiro tipo: aceita o calvário do poder para desviar um dinheiro que muitos acreditam ser público, mas que não é. Cada real daqueles mais de 42 milhões apreendidos saiu da mesa de um brasileiro em forma de imposto, e o que resta ao nosso povo sofrido, é na semana do pagamento refletir sobre seus esforços e concluir que é quase tudo em vão, pois somos sugados por políticos mesquinhos. Não nos falta a capacidade de produzir riqueza, de buscar viver dignamente e almejar a tranquilidade para pagar as contas, nos faltam meios.

Assim que li as notícias sobre o volume de dinheiro apreendido, me peguei pensando em números. Nós, brasileiros, carentes de tudo, poderíamos ver quantas famílias darem adeus ao aluguel ao serem contempladas com casas populares construídas com o montante apreendido? Cerca de 800? Um pouco mais? Um pouco menos? Quantos professores ou policiais com os salários atrasados, como os do Rio de Janeiro, poderiam ser pagos com esse montante, que representa quase 45 mil salários mínimos? Quantos pacientes com artrite reumatoide poderiam ter seus tratamentos com adalimumabe garantidos por um período de um ano, somente com os reais apreendidos no tal apartamento em Salvador? É isso que políticos como Geddel nos tiram, habitação, educação, segurança e saúde, e não dinheiro…

Episódios como o de ontem, não apenas roubam nosso futuro, mas matam nossa alma, fazendo com que o povo brasileiro deixe de acreditar que será possível sair dessa, de que será possível virar a página e evoluir como nação. Episódios como o de ontem só revelam o quanto somos desvalidos e o quanto a impunidade é o câncer que está matando o Brasil.

Que Deus nos proteja.

João Paulo Vani é Presidente da Academia Brasileira de Escritores, Mestre em Teoria Literária e Doutorando em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp de São José do Rio Preto. Contato: jpvani@editorahn.com.br

A suposta manipulação da imprensa “burguesa” e o “caso Lula”

Com o recentíssimo depoimento de Palocci sobre as relações escusas entre o PT (incluindo Lula) e a Odebrecht, cabe a pergunta: estaria Palocci acusando o seu amigo de partido (e homem de confiança) Lula apenas para se livrar da pena que lhe imputaram? Ou então o juiz Sérgio Moro conhece técnicas de uma espécie de tortura psicológica que leva os interrogados a confessarem crimes nunca cometidos e a delatarem, se necessário, até os próprios pais?

Evidentemente, uma imprensa séria e imparcial, comprometida com o bem coletivo, e não apenas com os próprios lucros ou com os próprios interesses eleitoreiros ou partidários, não vinculada necessariamente a uma corrente política ou ideológica, defensora da notícia ligada a averiguações sérias, e não da notícia-bomba, para explodir (e vender) sobre as mentes dos leitores (ou espectadores), daria a resposta para as questões propostas no parágrafo anterior de maneira a ressaltar que os fatos ainda estão sendo averiguados, isto é, que não se sabe até que ponto são confiáveis as palavras de Palocci, se constituem ou não o resultado de um longo processo de coação e de desespero de um homem acuado. Ao mesmo tempo, porém, a seriedade e a imparcialidade determinam imperiosamente que não se afirme que tal denúncia é mais um capítulo da série de manobras orquestradas pela imprensa burguesa e por Moro, suposto agente da CIA, para inculpar Lula e impedir que seja mais uma vez eleito presidente no ano que vem! Também não cabe afirmar apenas que nada foi provado e, portanto, não há culpa, pois a notícia se refere a um “work in progress”, cujos resultados e desdobramentos podem ser imprevisíveis, tanto na direção de uma culpa definitiva como na  inocentação decisiva.

Tanto a mídia séria e consciente, como artistas e intelectuais respeitáveis, deveriam ter um único compromisso: a profunda compreensão do ser humano, de suas misérias e grandezas, aperfeiçoando as relações entre os cidadãos, formando neles uma consciência dos deveres e dos direitos. No caso dos envolvidos com as ciências e, sobretudo, com as artes, o compromisso vai além, pois se estende ao respeito pelos princípios éticos e pela criação de uma estética (ou de uma linguagem formal) adequada ao contexto dos tempos que correm, sendo revolucionária no mais alto sentido do termo, isto é, compromissada com a constante renovação, sem que isto signifique necessariamente o desprezo pela herança cultural-artística recebida, estimulando um contínuo diálogo com o passado para melhor compreender o presente.

Talvez seja utópico, mas este é o modo de veicular uma notícia que gostaria de ler (ou de assistir) na mídia impressa ou eletrônica. Naturalmente, o discurso acaba recaindo sobre a responsabilidade de quem forma jornalistas e intelectuais, e não apenas no Brasil. Enquanto as universidades despejarem no mercado jovens profissionais ambiciosos, cuja única ambição é encher os próprios bolsos, e não o de promover o bem comum ao seu alcance (sem que para isso devam fazer da profissão uma via-crúcis ou um sacerdócio), não haverá significativas mudanças na mídia (e nos demais setores da sociedade).

Na situação atual, um leitor (ou espectador) consciente que quiser formar a própria opinião a partir dos dados que lhe são fornecidos pela mídia deve, na melhor das hipóteses, desconfiar tanto do que lhe é afirmado pela grande imprensa ou pelos grandes grupos midiáticos como dos jornais, sites ou blogs dos  “nanicos” ou “alternativos” que, por não terem acesso aos detalhes que envolvem um acontecimento ou por atenderem apenas aos interesses dos grupos que pretendem defender, também não elaboram uma análise lúcida e imparcial dos fatos.

Aos que se interessam, portanto, por um pouco de lucidez no confuso quadro da politica brasileira e no modo como as notícias nos chegam, resta apenas a sábia decisão de não tomar partido antes do tempo, não culpando, mas também não inocentando, tanto os governos anteriores como o atual. Duvidar é sempre de bom alvitre, mas também se faz sempre mais necessário acreditar que um futuro existe, não necessariamente paradisíaco, mas menos infernal. Sozinhos, porém, sem instituições sérias e sem uma mídia realmente livre, não sujeita às pressões do mercado, fica cada dia mais difícil enxergar a luz no fim do túnel!

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

A geografia do conhecimento e ensino superior no Brasil

A chamada “virada espacial” ou spatial turn trouxe à ciência outras referências ao estudo do conhecimento. Os tradicionais modos de investigação do conhecimento passaram a considerar a condição espacial em suas interpretações. A filosofia da ciência, sociologia do conhecimento, antropologia do conhecimento e os recentes estudos da história do conhecimento empreendido pelo historiador Peter Burke começaram a considerar a natureza situada da produção do saber. Tais fatos, somados as proposituras de perfis espaciais desenvolvidas por Anthony Giddens, Bruno Latour, Clifford Geertz, Donna Haraway, Edward Said, Michael Fulcault, dentre outros., impulsionaram geógrafos e outros intelectuais a desenhar um programa de pesquisa que passou a ser conhecido como geografia do conhecimento ou geografia da ciência. Geógrafos como David Noel Livingstone e Charles W.J. Withers são, para citar alguns, exemplos de tal empreendimento.

Considerando que o conhecimento detém uma espacialização, é possível mapearmos suas regionalizações no cenário brasileiro. Vejamos, resumidamente, alguns dados sobre o ensino superior no Brasil através do último censo realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP do ano de 2015. O número de matriculados em cursos de graduação presenciais e a distância em instituições públicas e privadas chegou a 8.027.297 de estudantes, espalhados em 2.364 instituições em todo território nacional conforme o quadro (1).


Quadro 1

Unidade da Federação / Categoría Administrativa TOTAL GENERAL
 

Total

 

Bacharelado

 

Licenciatura

 

Tecnólogo

 

Não Aplicável

Brasil     8.027.297        5.516.151   1.471.930  1.010.142 29.074
  Pública     1.952.145        1.195.020   578.997     149.209 28.919
  Federal     1.214.635           800.417      323.295      68.862 22.061
  Estadual        618.633           301.873     233.222      76.699 6.839
  Municipal        118.877             92.730       22.480          3.648 19
  Privada     6.075.152        4.321.131    892.933     860.933 155

Fonte: INEP  2015.

O ensino público se distribui em instituições de âmbito municipal, estadual e federal, compreendendo um total de 1.952.145 discentes, o que representa um terço dos jovens que estão em algum curso superior no Brasil. A esfera federal, entre os três âmbitos, é a que mais tem participação de matriculados, seguida pelas instituições estaduais e, respectivamente, das municipais. As instituições privadas representam dois terços dos estudantes do Brasil, num universo de 6.075.152 de matriculados. Tanto o domínio público como o privado congregam, em seu conjunto, o bacharelado como escolha de carreira preferencial. Quanto à licenciatura, considerada uma categoria distinta do bacharelado pelo INEP, representa 18% do total de estudantes.

Estes dados, geralmente objeto de estudo de estatísticos e economistas, necessitam, também, de investigações que considerem a condição espacial da produção e recepção deste contingente de jovens nos diversos lugares do território brasileiro.

A rasa democratização do acesso ao conhecimento ocorrida no Brasil nos últimos anos redesenhou consideravelmente as bases que sustentavam a ciência brasileira. Negros e pobres passaram a frequentar e ocupar esses espaços, realizando, em conjunto, um processo de expansão e interiorização do ensino superior para diversos lugares do Brasil, deslocando-se a centralidade da região concentrada de que falava o geógrafo Milton Santos.

A geografia, nesse sentido, pode contribuir com análises sólidas desses processos que se materializam fisicamente em diversos lugares do Brasil, ocorrendo, conjuntamente, estilos e identidades regionais da produção científica e de recepção nas cidades. Importante destacar, inclusive, a enorme quantidade de informações produzidas nesses centros educacionais, conduzindo a aparição de redes e a circulações de ideias em pequena e larga escala entre os investigadores. Tudo isso pode ser um objeto profícuo e também urgente de uma geografia do conhecimento no caso brasileiro, sem desconsiderar as relações e contradições entre o conhecimento público e o privado produzidos nessas diversas instituições e lugares.

A ciência, desse modo, e o ensino superior no Brasil em específico, não podem ser interpretados como um conhecimento “sem lugar”, como se as ideias fossem um tipo de produto transcendente ao espaço. A ciência é feita em lugares específicos, tal condição pode dar margem a perfis regionais de investigação científica, bem como características territoriais em níveis escalares maiores.    Por isso, creio ser importante que a geografia e os geógrafos e outros intelectuais deem atenção a essas novas configurações do acesso e produção do conhecimento identificando o “onde” e não apenas o “quanto”, dos movimentos e migrações do conhecimento e dos sujeitos.

Para maiores informações:

Instituto Nacional de estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. [2015] Brasília: Inep, 2016. [ 2016-11-20]. Disponível em: http://portal.inep.gov.br/ .

LIVINGSTONE, D. Putting Science in this Place: Geographies of Scientific Knowledge. ThW University of Chicago Press, Chicago. 2003.

SANTOS, M. O Brasil: Território e Sociedade no Século XXI. 14ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Guilherme dos Santos Claudino é doutorando em Geografia na Unesp, bolsista FAPESP e membro do Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais (GAsPERR).