A fila (des)andou

Os instrumentos que se usam para escolher ou preterir uma informação, notícia ou opinião nem sempre são explicitados aos leitores ou mesmo aos autores. A decisão pode ser limitada pelo espaço disponível, ou determinada pela oportunidade e adequação do tema tratado. Dizer “talvez” parece ser mais aceitável que um “não” direto, o que não é verdade, pois cria uma falsa expectativa de publicação. O editor já havia decidido não aproveitar aquele texto. Informa, apenas, que está na fila.

Nos meios de comunicação, a diversidade noticiosa é muito pequena, uma vez que as fontes são sempre as mesmas e é ali que se decide o que vai e o que não vai ser divulgado ao público. Abrir possibilidades para a opinião diversa diminui um pouco essa homogeneidade, mas continuam sendo escolhas de alguns. O autor busca a materialização de sua obra por meio da publicação, dispensando – em um primeiro momento – a remuneração pelo feito.

Redações enxutas, múltiplos meios de divulgação de fatos e opiniões e a interatividade entre os leitores fizeram com que as estratégias da comunicação mudassem, não mais reproduzindo aquelas dos tempos da exclusividade dos meios impressos. A leitura linear foi substituída pelo hipertexto e as limitações entre o que é notícia, o que é opinião e o que é propaganda ficaram muito menos claras.

O bom jornalismo ainda é praticado – raro, por certo, uma vez que todos se sentem aptos a espalhar o que recebem em seus celulares e redes sociais. Opinião balizada é outro rótulo que não expressa necessariamente um profundo conteúdo, pois palpite sempre pudemos dar. A diferença é que agora não fica limitado à mesa de bar ou ao convívio de familiares ou amigos. Achismos, boatos e notícias falsas se espalham em crescimento microbiano, de proporções exponenciais e sem controle.

Insisto na opinião, na comprovação e na comparação da notícia. É mais trabalhoso, sem dúvida, e um contraponto à frenética inserção que se supõe ser a marca da sociedade moderna. Mas satisfaz-me, ainda que não me avisem que a fila andou.

 

Adilson Roberto Gonçalves é pesquisador na Unesp de Rio Claro.

 

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